
O trio pop que virou 2024 de cabeça para baixo
Em 2024, 'Espresso', de Sabrina Carpenter, acumulou mais de 1,6 bilhão de reproduções no Spotify, tornando-se a música mais ouvida globalmente na plataforma durante o ano. Não foi lançada por Beyoncé, nem por Taylor Swift. Foi feita por uma ex-atriz mirim que até pouco tempo abria shows alheios.
Esse dado resume bem o que aconteceu com o pop em 2024: três artistas consideradas de nicho tomaram o lugar que costumava pertencer às megaestrelas polidas e intocáveis.
Álbuns escritos antes da fama, sem pressão de audiência de massa
Charli XCX, Chappell Roan e Sabrina Carpenter têm algo em comum além do sucesso: seus álbuns mais celebrados foram compostos quando nenhuma delas era ainda a estrela que se tornaria. Sem a pressão de agradar milhões, cada uma cultivou um som tão específico que não pode ser confundido com o de nenhuma outra artista.
'Brat', de Charli XCX, chegou como uma obra-prima suada, desafiadora e verde-melosa, segundo o New York Times, que descreveu a trajetória da artista como uma fuga da 'classe média do pop'. O álbum alterna entre bravata arrogante e reflexões cruas sobre insegurança. Na faixa 'Rewind', ela canta: 'Hoje em dia só como nos bons restaurantes, mas honestamente estou sempre pensando no meu peso'.
'Short n' Sweet', de Sabrina Carpenter, é recheado de duplos sentidos e insinuações, mas também de momentos de franqueza direta. Em certas faixas, ela simplesmente abandona o artifício e diz o que quer dizer, algo que artistas como Madonna já sofreram críticas por fazer décadas atrás.
Já 'The Rise and Fall of a Midwestern Princess', de Chappell Roan, saiu há mais de um ano antes de explodir em 2024. O álbum ganhou audiência rapidamente enquanto ela levava o show para a estrada, conforme apontado pela CNN Brasil.
A virada que o rádio não previu
Sam Murphy, curador musical que analisa pop em sua conta popular no TikTok, observou que a geração que consome música hoje não quer mais o brilho ensaiado. 'O que as pessoas realmente ansiaram este ano, a geração TikTok, foi ver mais bagunça e caos na vida das pessoas. Queríamos estrelas pop nas quais pudéssemos ver as falhas e o carisma surgindo', disse Murphy.
A comparação que ele faz é precisa: a transição do Instagram para o TikTok mudou o padrão de autenticidade esperado. No Instagram, o feed era sobre mostrar uma vida perfeita. No TikTok, a imperfeição virou moeda.
Essas três artistas adotaram exatamente essa lógica em sua música.
O rádio, que por décadas ditava quem se tornava estrela, agora corre atrás. Charli XCX e Chappell Roan se comunicam diretamente com os fãs pelo TikTok, sem declarações aprovadas por gerentes, sem filtro corporativo.
Performances ao vivo como motor de crescimento
Chappell Roan abriu a turnê 'Guts' de Olivia Rodrigo no início de 2024 e depois passou pelos principais festivais de primavera e verão. Em abril, um clipe dela interpretando 'Good Luck, Babe!' no Coachella, vestida de látex e couro, viralizou e levou novos fãs de volta ao seu álbum de estreia.
Quatro meses depois, no Lollapalooza, ela se apresentou para o que os organizadores estimaram ser cerca de 110.000 pessoas, a maior multidão da história do festival.
'Estávamos assistindo a esse crescimento em tempo real, em conjunto com apresentações incríveis de sua música ao vivo', disse Murphy. 'É difícil imaginar que esse tipo de coisa acontecesse há cinco anos, antes da pandemia.'
Sabrina Carpenter seguiu trajetória parecida: abriu shows de Taylor Swift na 'The Eras Tour' antes de conquistar festivais por conta própria e lançar 'Espresso', a música que apresentou ao mundo a frase 'that me espresso'.
Charli XCX, por sua vez, transformou arenas em clubes suados, segundo Murphy. As batidas de 'Brat' foram feitas para o dancefloor, e a experiência ao vivo entregou exatamente isso.
Sons distintos, influências declaradas
Nenhuma das três reinventou o pop do zero. Chappell Roan constrói pontes no estilo Kate Bush em 'Good Luck, Babe!'. Sabrina Carpenter pega referências de Shania Twain e Ariana Grande em partes de 'Short n' Sweet'. Charli XCX citou pioneiros eletrônicos como Sophie e nomes como Lou Reed e Daft Punk ao falar sobre 'Brat'.
O que diferencia as três não é a ruptura com o passado, mas a maneira como aplicam influências conhecidas com um ponto de vista próprio e inconfundível.
Mike Errico, músico e professor assistente visitante de artes no Instituto Clive Davis de Música Gravada da Universidade de Nova York, resume bem: 'As músicas são ótimas. Elas são ótimas compositoras e vocalistas, e estão trabalhando com ótimas equipes. Mas elas também têm algo muito urgente a dizer.'
A estética de Chappell Roan, inspirada em drag queens e no teatro, atraiu comparações com Lady Gaga. Ela se presta bem a músicas sobre se apaixonar por outras mulheres, ainda uma raridade no pop mainstream. O primeiro verso de 'Red Wine Supernova' diz: 'Ela fez isso ali mesmo, no convés, colocou seus dentes caninos no lado do meu pescoço'.
O que os números revelam sobre a mudança de guarda
'Good Luck, Babe!', único single novo de Chappell Roan lançado em 2024, ultrapassou um bilhão de streams. 'Espresso', com 1,6 bilhão de plays, ficou no topo do ranking global do Spotify no ano.
Esses números colocam as três ao lado, e em alguns casos acima, de artistas com décadas de carreira e máquinas promocionais muito maiores.
Murphy observa que a 'estrela pop onipresente e que satisfaz a todos desapareceu'. Em vez disso, nichos foram crescendo até penetrar na conversa mainstream. O nicho de fãs de Chappell Roan, por exemplo, sustentou o álbum por mais de um ano antes de ele explodir, sem depender de um lançamento estratégico ou de campanha de rádio.
Errico vê nas músicas dessas artistas uma camada adicional de significado para o momento atual. Faixas como 'I think about it all the time', de Charli, em que ela avalia a maternidade, e as canções de amor queer de Chappell Roan assumem, segundo ele, nova gravidade em um contexto em que a autonomia corporal de mulheres e pessoas LGBTQ+ está sob pressão nos Estados Unidos. 'Elas estão construindo um novo exército para uma época recém-perigosa, enquanto também se divertem muito', disse Errico.
O futuro imediato do pop, segundo Murphy, inclina-se para o excesso honesto. Charli pintando arenas de verde, Roan se apresentando coberta com a pátina da Estátua da Liberdade, Carpenter provocando puritanos em sua turnê. Nada disso funcionaria, porém, sem as letras confessionais que sustentam cada performance.
'As pessoas às vezes brincam que estamos vivendo na pior linha do tempo, mas esses artistas estão determinados a fazer a melhor festa que alguém já tentou fechar', disse Errico.



