
Nagoro, a vila japonesa com mais espantalhos do que moradores
Em Nagoro, um vilarejo isolado nas montanhas da província de Tokushima, no Japão, os visitantes costumam ter a mesma reação: acenam para alguém sentado no banco da pracinha, esperando o ônibus, ou trabalhando na horta, e demoram alguns segundos para perceber que a pessoa é, na verdade, um boneco de pano.
Hoje vivem em Nagoro cerca de 30 pessoas. Os espantalhos em tamanho humano espalhados pela vila somam quase 300, uma proporção de dez bonecos para cada morador de carne e osso. Eles aparecem sentados em bancos de ônibus, plantados em campos, apoiados em varandas e até posicionados dentro de veículos abandonados, reproduzindo cenas cotidianas que a vila deixou de viver com a intensidade de décadas atrás.
Um espantalho que virou o pai da criadora
Tudo começou quando Tsukimi Ayano voltou a morar em Nagoro, sua terra natal, para cuidar do pai. Tentando plantar uma horta, ela via as sementes serem comidas por pássaros antes mesmo de germinar.
A solução foi criar um espantalho, e, por acaso, ela decidiu caracterizá-lo para se parecer com o próprio pai. O resultado foi tão convincente que vizinhos paravam para cumprimentar o boneco, achando que era ele mesmo.
Antes de voltar a Nagoro, Tsukimi vivia em Osaka, uma das maiores cidades do Japão, o mesmo caminho inverso que praticamente ninguém mais da vila fez. Os bonecos que ela cria são feitos artesanalmente com palha, tecidos e roupas velhas doadas ou encontradas pela comunidade, e precisam ser repostos periodicamente conforme o tempo e o clima os desgastam. Cada figura leva, em média, alguns dias de trabalho manual, desde o esqueleto de palha até os últimos retoques de roupa e expressão facial pintada ou costurada.
De horta a memorial da vila
Animada com a repercussão, Tsukimi passou a criar novos espantalhos representando moradores que haviam falecido ou se mudado da vila envelhecida, como uma forma de manter viva a memória de cada um deles.
Cada boneco tem nome, idade, altura, peso e até personalidade registrados em um livro mantido pela comunidade, uma espécie de censo paralelo, só que para os espantalhos.
Um dos cenários mais lembrados por quem visita Nagoro é a antiga escola primária da vila, fechada em 2012 depois que o número de crianças caiu a ponto de inviabilizar as turmas. Em vez de deixar o prédio abandonado, Tsukimi preencheu as salas de aula com espantalhos representando professores e alunos, recriando a rotina escolar de uma época em que a vila ainda tinha vida jovem circulando pelos corredores. Cada boneco escolar ocupa uma carteira específica, com material de estudo posicionado à frente, em uma cena montada com atenção a detalhes que reforça o efeito de nostalgia sentido por quem entra na sala.
O turismo chegou junto com o Projeto Kakashi
Em 2009, o departamento de turismo local formalizou a iniciativa com o "Projeto Kakashi" (kakashi significa espantalho em japonês), abrindo até um curso de produção de bonecos no salão comunitário da vila.
Desde 2013, a vila realiza todo ano o Kakashi Matsuri, ou Festival dos Espantalhos, no último domingo de outubro. O evento usa a antiga escola desativada como palco principal e atrai visitantes de outras regiões do Japão e do exterior, curiosos para ver de perto a coleção de bonecos e conhecer a história por trás dela.
Desde então, Nagoro passou a atrair curiosos do Japão e do exterior, interessados em ver de perto uma vila que virou símbolo do envelhecimento populacional rural japonês, e da criatividade que nasceu para lidar com ele. Guias locais e pequenos comércios de artesanato surgiram para atender esse fluxo de visitantes, um contraste curioso para uma vila que, poucos anos antes, parecia caminhar apenas para o esvaziamento total.
Um retrato silencioso do interior do Japão
Assim como muitas regiões rurais do Japão, Nagoro perdeu boa parte de sua população jovem para as grandes cidades ao longo das décadas. Os espantalhos de Tsukimi acabaram se tornando um retrato, tocante e um tanto surreal, de uma comunidade que insiste em não desaparecer completamente, mesmo que seja, em boa parte, feita de pano e palha.
O caso de Nagoro é um retrato extremo de um fenômeno que afeta o país inteiro. O Japão tem hoje uma das populações mais envelhecidas do mundo, com quase 30% dos habitantes acima de 65 anos, combinando baixa natalidade com décadas de êxodo de jovens rumo a grandes centros urbanos como Tóquio e Osaka. O resultado é uma quantidade crescente de casas rurais abandonadas, conhecidas no país como "akiya", que já somam milhões de imóveis vazios espalhados por vilarejos como Nagoro.
Nesse contexto, os espantalhos de Nagoro funcionam quase como um contraponto poético ao esvaziamento: em vez de deixar as casas, ruas e a escola simplesmente vazias, a vila optou por preenchê-las com figuras que lembram, uma a uma, quem um dia viveu ali, transformando um símbolo de declínio demográfico em um destino que hoje atrai justamente as pessoas que o interior do Japão mais precisa: visitantes de fora.
Fotógrafos e documentaristas de diferentes países já visitaram Nagoro para registrar o fenômeno, e a vila apareceu em reportagens internacionais que a descrevem como uma espécie de metáfora viva do envelhecimento populacional japonês. Para os moradores que restaram, porém, o projeto de Tsukimi nunca foi pensado como uma atração turística: começou como uma forma pessoal de lidar com a solidão do campo e, aos poucos, se transformou em algo maior, capaz de manter viva a memória coletiva de uma vila que insiste em não ser esquecida.



