Nagoro, a vila japonesa com mais espantalhos do que moradores
Em Nagoro, um vilarejo isolado nas montanhas da província de Tokushima, no Japão, os visitantes costumam ter a mesma reação: acenam para alguém sentado no banco da pracinha, esperando o ônibus, ou trabalhando na horta — e demoram alguns segundos para perceber que a pessoa é, na verdade, um boneco de pano.
Hoje vivem em Nagoro cerca de 30 pessoas. Os espantalhos em tamanho humano espalhados pela vila somam quase 300 — uma proporção de dez bonecos para cada morador de carne e osso.
Um espantalho que virou o pai da criadora
Tudo começou quando Tsukimi Ayano voltou a morar em Nagoro, sua terra natal, para cuidar do pai. Tentando plantar uma horta, ela via as sementes serem comidas por pássaros antes mesmo de germinar.
A solução foi criar um espantalho — e, por acaso, ela decidiu caracterizá-lo para se parecer com o próprio pai. O resultado foi tão convincente que vizinhos paravam para cumprimentar o boneco, achando que era ele mesmo.
De horta a memorial da vila
Animada com a repercussão, Tsukimi passou a criar novos espantalhos representando moradores que haviam falecido ou se mudado da vila envelhecida, como uma forma de manter viva a memória de cada um deles.
Cada boneco tem nome, idade, altura, peso e até personalidade registrados em um livro mantido pela comunidade — uma espécie de censo paralelo, só que para os espantalhos.
O turismo chegou junto com o Projeto Kakashi
Em 2009, o departamento de turismo local formalizou a iniciativa com o "Projeto Kakashi" (kakashi significa espantalho em japonês), abrindo até um curso de produção de bonecos no salão comunitário da vila.
Desde então, Nagoro passou a atrair curiosos do Japão e do exterior, interessados em ver de perto uma vila que virou símbolo do envelhecimento populacional rural japonês — e da criatividade que nasceu para lidar com ele.
Um retrato silencioso do interior do Japão
Assim como muitas regiões rurais do Japão, Nagoro perdeu boa parte de sua população jovem para as grandes cidades ao longo das décadas. Os espantalhos de Tsukimi acabaram se tornando um retrato — tocante e um tanto surreal — de uma comunidade que insiste em não desaparecer completamente, mesmo que seja, em boa parte, feita de pano e palha.


