
Butão trocou o PIB por um índice de felicidade
Enquanto a maioria dos governos mede seu sucesso pelo Produto Interno Bruto, o pequeno reino do Butão, no Himalaia, escolheu um caminho diferente: desde os anos 1970, o país guia suas políticas públicas por um índice chamado Felicidade Interna Bruta (FIB).
A frase que resume a filosofia foi dita pelo próprio rei Jigme Singye Wangchuck, criador do conceito: "a Felicidade Interna Bruta é mais importante que o Produto Interno Bruto".
De ideia de um rei a lei constitucional
O conceito nasceu de forma quase informal na década de 1970, mas ganhou peso institucional em 2008, quando foi formalizado na Constituição do Butão. Desde então, toda proposta de governo passa por uma análise de impacto sobre a felicidade da população antes de ser aprovada.
Essa exigência constitucional transformou a Felicidade Interna Bruta em um filtro obrigatório para políticas públicas no país: qualquer novo projeto de lei, plano de desenvolvimento ou grande investimento estatal precisa demonstrar, ao menos em tese, que não vai prejudicar o bem-estar da população em algum dos domínios monitorados pelo governo.
Como se mede a felicidade de um país
O índice é dividido em 9 domínios, que vão de bem-estar psicológico a uso do tempo, passando por saúde, educação, meio ambiente, cultura e governança, desdobrados em 33 indicadores e 135 variáveis possíveis. Pesquisas periódicas do governo entrevistam a população para preencher esses critérios.
Se as respostas consideradas positivas somam mais de 66% em uma área, o resultado é considerado satisfatório. Abaixo disso, os pesquisadores sinalizam que aquele setor precisa de mais atenção e investimento público.
Toda essa estrutura se apoia em quatro pilares definidos desde a criação do conceito: boa governança, desenvolvimento socioeconômico sustentável, preservação e promoção da cultura, e conservação ambiental. É a partir desses quatro eixos que os nove domínios de medição, psicológico, saúde, uso do tempo, vitalidade comunitária, educação, diversidade cultural, padrão de vida, resiliência ecológica e governança, foram desenhados.
A pesquisa nacional de felicidade é aplicada a cada alguns anos por uma equipe de entrevistadores que percorre vilarejos remotos e centros urbanos, aplicando questionários extensos que podem levar horas para serem concluídos com cada participante, o que torna o levantamento um dos mais detalhados do gênero em qualquer país do mundo.
Um índice que decide onde vai o dinheiro público
Não se trata apenas de um relatório simbólico: os resultados da pesquisa de Felicidade Interna Bruta ajudam a determinar a divisão de 65% do dinheiro público do Butão e orientam diretamente a criação de novas políticas.
Isso significa que questões como preservação cultural e conservação ambiental têm peso econômico real nas decisões do governo butanês, algo raro entre países que seguem apenas indicadores financeiros tradicionais.
O mesmo país que cobra a taxa de turismo mais cara do mundo
A lógica da Felicidade Interna Bruta também aparece na forma como o Butão trata o turismo. Desde que abriu suas fronteiras a visitantes estrangeiros, em 1974, o país adota a política de "alto valor, baixo volume": em vez de tentar atrair o maior número possível de turistas, cobra uma taxa diária obrigatória de desenvolvimento sustentável, que já chegou a US$ 200 por pessoa por dia e hoje gira em torno de US$ 100. O valor arrecadado é revertido para saúde e educação gratuitas da população local, além de infraestrutura.
A mesma preocupação ambiental que sustenta o índice de felicidade também está na Constituição butanesa, que exige que pelo menos 60% do território do país fique coberto por florestas. Graças a políticas como essa, o Butão costuma ser citado como um dos raros países do mundo com balanço de carbono negativo, ou seja, absorve mais dióxido de carbono da atmosfera do que emite.
Um modelo único, mas de difícil cópia
O modelo butanês costuma ser citado como inspiração por pesquisadores e governos interessados em ir além do PIB, mas seu tamanho pequeno e população reduzida tornam a comparação direta com países grandes bastante difícil. Ainda assim, o Butão segue como o exemplo mais citado no mundo de um governo que colocou o bem-estar subjetivo da população no centro de suas decisões políticas.
Outros países já tentaram adaptar partes do modelo butanês, criando seus próprios índices de bem-estar e qualidade de vida para complementar indicadores econômicos tradicionais, mas raramente com o mesmo nível de peso institucional que a Felicidade Interna Bruta tem dentro da própria Constituição do Butão. É esse enraizamento constitucional, mais do que a métrica em si, que os especialistas costumam apontar como o verdadeiro diferencial da experiência butanesa.
Organismos internacionais como a ONU também passaram a citar o caso butanês como referência ao debater alternativas ao PIB como indicador principal de desenvolvimento, incluindo a criação de relatórios anuais de felicidade que hoje comparam dezenas de países usando metodologias inspiradas, ainda que de forma mais simplificada, na experiência pioneira do pequeno reino do Himalaia.
Críticos do modelo, por outro lado, apontam que a Felicidade Interna Bruta convive com desafios sociais e econômicos que o índice não resolve sozinho, como o desemprego entre jovens e a migração de parte da população butanesa em busca de melhores oportunidades no exterior, um lembrete de que nenhuma métrica, por mais abrangente que seja, substitui políticas econômicas concretas de geração de emprego e renda.



