Quizpedia
← Voltar para curiosidades
Ciência & Universo 5 min04 de jul. de 2026

Europa em chamas: 7 dados que explicam o calor histórico de 2026

Em 25 de junho de 2026, um termômetro em Lingwood, Norfolk, marcou 37,7°C. Não seria extraordinário em julho em partes da Europa continental, mas era junho no Reino Unido, e aquela leitura superou o recorde anterior do país para o mês por 6°C inteiros.

Para ter uma ideia do que isso representa: segundo Ed Hawkins, professor de ciências climáticas da Universidade de Reading, os recordes de temperatura normalmente são quebrados por décimos de grau, no máximo por cerca de 1°C. Quebrar por 6°C é, nas palavras do próprio cientista, 'notável e extraordinário'.

Dois meses consecutivos de calor extremo

O evento de junho não chegou sozinho. Ele veio logo depois de maio, que também registrou temperaturas muito acima da média no Reino Unido e em partes da Europa. Os dois meses formaram uma sequência que cientistas e agências meteorológicas ainda estão processando em termos de dados.

A Agência Meteorológica da ONU classificou o evento de junho como 'extraordinário' em escala continental. O serviço meteorológico alemão, o Deutscher Wetterdienst, foi mais direto: chamou de 'uma onda de calor para os livros de história'. A agência francesa Météo-France usou os termos 'excepcional' e 'histórica'.

As temperaturas de maio e junho de 2026 ficaram cerca de 10°C acima da média para a época do ano no Reino Unido, de acordo com os dados compilados pela BBC e pelo BBC Verify.

170 estações quebraram recordes em um único mês

Mais de 170 estações meteorológicas no Reino Unido quebraram seus recordes de temperatura para junho durante a onda de calor. A concentração maior ficou na Inglaterra e no País de Gales, mas registros também foram superados na Escócia e na Irlanda do Norte.

O recorde anterior do país para junho era de 35,6°C, estabelecido em 1957 e igualado em 1976. Várias estações ultrapassaram essa marca em 2026, com algumas das mais antigas registrando novos máximos com margem de 2°C ou mais acima dos recordes históricos.

Para o professor Hawkins, essa margem é o dado mais revelador: 'Normalmente esperamos que os recordes sejam quebrados por pequenas quantidades, décimos, talvez até um grau. Então tê-los destruídos por uma margem tão grande é notável.'

Noites tropicais: o calor que não cede

A onda de calor de junho foi particularmente sufocante por combinar altas temperaturas com umidade elevada. Quando o ar está muito úmido, o corpo humano perde eficiência para se resfriar pelo suor, tornando o calor fisiologicamente mais difícil de suportar.

Somou-se a isso o fenômeno das 'noites tropicais', definidas como noites em que a temperatura não cai abaixo de 20°C. Historicamente raras no Reino Unido, elas se multiplicaram durante a semana de 22 a 28 de junho de 2026.

Londres, Bristol, Southampton, Cardiff e Birmingham registraram entre 3 e 4 noites tropicais nesse período. Em Cardiff, na noite de 24 para 25 de junho, a temperatura mínima foi de 23,5°C, o que a BBC identificou como a noite de junho mais quente já registrada no entorno do Reino Unido.

O corpo humano depende das temperaturas noturnas mais baixas para se recuperar do calor diurno. Quando isso não acontece por vários dias seguidos, os riscos à saúde se acumulam.

Europa inteira sob o mesmo 'domo de calor'

O mesmo sistema de alta pressão que manteve o ar quente sobre o Reino Unido se estendeu por toda a Europa. Mais de uma dúzia de países quebraram seus recordes históricos de temperatura para junho, com margens de 2°C a 3°C acima dos registros anteriores.

Hungria (42°C), República Tcheca (41,9°C) e Alemanha (41,8°C) não apenas bateram recordes de junho, mas estabeleceram novos máximos absolutos para qualquer época do ano. A Dinamarca também entrou nessa lista.

A Suíça chegou a 39°C, superando seu recorde anterior de junho por mais de 2°C. Sonia Seneviratne, professora do Instituto de Ciências Atmosféricas e Climáticas da ETH Zurique, afirmou que o evento foi 'obviamente muito incomum em comparação com medições históricas', mas acrescentou: 'Como cientista climática, não fiquei tão surpresa ao ver isso acontecer, sabendo que temos um clima em aquecimento.'

Por que a Europa aquece mais rápido

A Europa está esquentando mais rapidamente do que qualquer outro continente. Dados comparando as médias de temperatura continental desde 1946 mostram que a Europa se afastou significativamente da média global, especialmente a partir dos anos 1980 e 1990.

Dois fatores explicam boa parte dessa aceleração. O primeiro é o derretimento de neve e gelo brilhantes, que antes refletiam a energia solar de volta ao espaço. Com menos superfície reflexiva, mais energia fica retida na superfície terrestre.

O segundo fator é a redução de partículas poluentes na atmosfera europeia, resultado de décadas de políticas de qualidade do ar. Embora benéfica para a saúde respiratória, essa mudança também reduziu um efeito colateral involuntário: essas partículas bloqueavam parte da radiação solar.

Além disso, os mares europeus estão excepcionalmente quentes neste verão de 2026. O Canal da Mancha registrou temperatura 1,8°C acima da média; o Golfo de Biscaia, 2,1°C acima. Mares mais quentes reduzem o efeito resfriador das brisas marítimas e podem intensificar futuras ondas de calor em terra.

O que 30°C em junho significava antes

Há poucas décadas, o Reino Unido atingir 30°C em junho era um evento raro. Os dados históricos desde 1960 mostram que, entre 1960 e 1999, isso aconteceu apenas 12 vezes em 40 anos.

Nove dos dez anos entre 2017 e 2026 registraram pelo menos um dia com 30°C em junho no país. O que era exceção virou padrão.

O professor Stephen Belcher, cientista-chefe do Met Office do Reino Unido, foi direto ao avaliar o evento de junho de 2026: 'Ver temperaturas assim no Reino Unido em junho é sóbrio.' Ele também destacou que 'a mudança climática induzida pelo ser humano tornou eventos como este mais prováveis e mais intensos.'

O aviso que os dados carregam

Os cientistas são cuidadosos ao dizer que o aquecimento de longo prazo não garante que a próxima onda de calor será mais intensa que a anterior, nem que o próximo verão será necessariamente mais quente que este.

Mas a tendência é inequívoca: os verões europeus continuarão aquecendo em média enquanto as emissões de carbono seguirem aquecendo o planeta.

Ed Hawkins resumiu a trajetória em termos diretos: 'Nossas ondas de calor ficarão cada vez mais quentes até chegarmos ao net zero global de emissões de gases de efeito estufa e estabilizarmos o clima.'

Apenas alguns dias depois da onda de calor de junho, outra estava chegando. O Reino Unido e a Europa, segundo os dados de julho de 2026, registraram o verão mais quente de suas histórias.

Leia também