
O planeta onde nuvens de pedra somem toda noite
A 700 anos-luz da Terra, na constelação do Microscópio, existe um planeta gigante onde as nuvens são feitas de rocha. Toda manhã elas se formam. Toda noite elas desaparecem. E esse ciclo se repete, dia após dia, em temperaturas que ultrapassam 1.000 graus.
O planeta se chama WASP-94A b, e sua descoberta foi publicada em 27 de maio de 2026 na revista científica Science, com dados coletados pelo Telescópio Espacial James Webb, da NASA.
Nuvens que não são de vapor d'água
As nuvens que conhecemos na Terra são formadas por gotículas de água em suspensão. No WASP-94A b, o processo é radicalmente diferente: as nuvens são compostas de silicato de magnésio, um mineral encontrado em rochas comuns aqui no nosso planeta.
Esse tipo de nuvem mineral já havia sido previsto por modelos teóricos para planetas extremamente quentes, mas nunca tinha sido observado diretamente em ciclo completo de formação e dissipação. A equipe liderada por Sagnick Mukherjee, pesquisador pós-doutoral da Arizona State University que era estudante na Johns Hopkins University e na UC Santa Cruz durante a pesquisa, foi a primeira a registrar esse comportamento em tempo real.
O planeta pertence a uma categoria chamada 'Hot Jupiter', ou Júpiter Quente. São gigantes gasosos que orbitam tão próximos de suas estrelas que ficam mais perto delas do que Mercúrio está do Sol. Essa proximidade extrema cria condições atmosféricas sem paralelo no Sistema Solar.
A diferença brutal entre manhã e noite
O que o James Webb revelou foi uma diferença brutal entre os dois lados do planeta. O lado matutino, onde os ventos atmosféricos carregam ar da face noturna em direção ao lado iluminado, estava repleto de nuvens de silicato de magnésio.
O lado vespertino, por sua vez, apresentava céu praticamente limpo.
David Sing, professor Bloomberg Distinguished de Ciências da Terra e Planetárias na Johns Hopkins University e co-autor do estudo, descreveu o impacto da descoberta com precisão: 'Tenho estudado exoplanetas por 20 anos, e a nebulosidade generalizada tem sido um espinho em nosso lado. Sabíamos há bastante tempo que as nuvens são generalizadas em planetas Júpiter Quente, o que é irritante porque é como tentar olhar para o planeta através de uma janela embaçada.'
Sing acrescentou que a nova observação mudou completamente a visão que os cientistas tinham do planeta: 'Não apenas conseguimos limpar a visão, mas finalmente podemos identificar do que as nuvens são feitas e como estão condensando e evaporando enquanto se movem ao redor do planeta.'
A diferença entre os dois lados foi chamada pelos pesquisadores de 'dicotomia real', algo muito além do esperado.
Por que as nuvens desaparecem?
Duas hipóteses explicam o sumiço das nuvens na face noturna.
A primeira sugere que ventos extremamente poderosos arrastam as nuvens para dentro da atmosfera do planeta, no lado diurno escaldante, escondendo-as da observação direta. A segunda hipótese é que as nuvens simplesmente evaporam ao entrar em contato com temperaturas superiores a 1.000 graus, de maneira similar ao que ocorre com o nevoeiro matinal na Terra, mas em condições incomparavelmente mais violentas.
Ainda não há consenso sobre qual das duas explicações é a correta. Os pesquisadores planejam investigar esse ponto em estudos futuros.
O céu limpo e o que ele revelou sobre a atmosfera
O lado vespertino sem nuvens acabou sendo um presente científico inesperado. Com o céu desobstruído, o James Webb pôde analisar diretamente a composição química da atmosfera do planeta, algo que telescópios anteriores, como o Hubble, não conseguiam fazer com precisão.
Mukherjee explicou a limitação dos instrumentos mais antigos: 'Com o telescópio Hubble, quando fazíamos esse tipo de observação, obtínhamos uma visão média de todo o planeta com dados das nuvens e da atmosfera comprimidos juntos e indistinguíveis. Essa abordagem com o JWST nos permite localizar nossas observações, o que nos ajudou a ver o ciclo das nuvens.'
O resultado foi uma correção significativa na compreensão do planeta. Medições anteriores indicavam que o WASP-94A b continha centenas de vezes mais oxigênio e carbono do que Júpiter, um dado que não se encaixava nas teorias existentes sobre formação planetária.
Com os novos dados, a estimativa caiu para apenas cinco vezes mais do que Júpiter, tornando o exoplaneta muito mais parecido com o gigante do nosso sistema solar do que se acreditava. A nebulosidade das observações anteriores havia distorcido completamente a leitura química do planeta.
Três planetas com o mesmo ciclo
Após estudar o WASP-94A b, a equipe analisou outros oito Júpiteres Quentes e identificou padrões semelhantes de ciclo de nuvens em dois deles: WASP-39 b e WASP-17 b.
Isso sugere que o fenômeno pode ser mais comum do que se imaginava entre planetas dessa categoria. O próximo passo da equipe é ampliar a busca por meio de um programa de observação maior com o James Webb, que investigará ciclos de nuvens em muitos outros exoplanetas, incluindo um gigante gasoso incomum que atravessa a zona habitável em uma órbita excêntrica.
O estudo foi publicado na revista Science com o título 'Cloudy mornings and clear evenings on a gas giant exoplanet' e envolveu pesquisadores da Johns Hopkins University, Arizona State University e outras instituições. Foi uma das primeiras vezes que cientistas observaram diretamente o ciclo completo de nuvens em um exoplaneta do tipo Júpiter Quente.



