
O que acontece no seu cérebro enquanto você sonha?
Mais de 2.600 registros cerebrais coletados em 13 países apontam para uma conclusão que contraria décadas de neurociência: o cérebro humano não precisa estar na fase REM para sonhar. Ele também não se apaga durante o sono profundo. A mente, ao que tudo indica, nunca para completamente.
Essa foi a descoberta central do projeto DREAM, coordenado pela Universidade de Monash e publicado na revista científica Nature em outubro de 2025. O estudo reuniu dados de mais de 500 voluntários e se tornou o maior acervo de registros cerebrais durante o sono já organizado pela ciência.
A fase REM não tem o monopólio dos sonhos
Durante décadas, o consenso era claro: sonhos acontecem na fase REM, aquela em que os olhos se movem rapidamente sob as pálpebras fechadas e a atividade cerebral dispara. Era como se o cérebro precisasse de um estado quase desperto para criar imagens, vozes e narrativas durante a noite.
O projeto DREAM derrubou esse pressuposto. Ao cruzar ondas cerebrais, padrões respiratórios e movimentos oculares de centenas de participantes, os pesquisadores localizaram o exato momento em que os sonhos surgem, e muitos deles aconteciam no sono NREM, a fase mais profunda do descanso.
Giulio Bernardi, pesquisador do IMT School de Lucca, na Itália, resume a descoberta com uma imagem precisa: 'Durante o sono NREM, o cérebro não está apagado, mas em vigília parcial, como se conversasse em silêncio consigo mesmo'.
O REM, portanto, não é nem necessário nem suficiente para gerar experiências oníricas.
Vigília encoberta: a zona cinzenta da mente adormecida
O achado mais perturbador do estudo veio ao comparar os registros do sono profundo com os da vigília plena. Quando voluntários relatavam ter sonhado fora da fase REM, seus cérebros exibiam padrões elétricos quase idênticos aos de pessoas completamente acordadas.
Daí surgiu o conceito de vigília encoberta: um estado intermediário em que o corpo repousa enquanto a mente segue ativa, fabricando cenas, emoções e personagens. Não se trata de um sono leve nem de um despertar incompleto. É uma terceira condição, situada entre os dois extremos que a ciência sempre tratou como opostos.
Essa descoberta tem peso filosófico além do científico. Se o cérebro mantém uma centelha de consciência mesmo no sono mais profundo, a fronteira entre estar acordado e estar dormindo é muito menos nítida do que se supunha.
Rostos nos sonhos: o cérebro não inventa do zero
Entre os achados que a pesquisa do sono acumulou ao longo dos anos, um continua chamando atenção: o cérebro não inventa rostos do nada. Todos os rostos que aparecem nos sonhos pertencem a pessoas que o sonhador já viu em algum momento da vida, seja pessoalmente, em fotos ou em telas.
O banco de dados do projeto DREAM permitiu cruzar esse tipo de relato subjetivo com dados objetivos de atividade cerebral, abrindo caminho para verificar padrões que antes dependiam apenas da memória dos voluntários ao acordar.
A memória é justamente um dos pontos fracos da pesquisa tradicional sobre sonhos: a maior parte do que sonhamos se dissolve nos primeiros minutos após o despertar.
Inteligência artificial treinada para detectar sonhos
Para contornar esse limite, os pesquisadores do projeto DREAM treinaram algoritmos de inteligência artificial com os registros coletados. O resultado foi um sistema capaz de identificar quando uma pessoa está sonhando apenas pela atividade elétrica do cérebro, sem depender de nenhum relato posterior.
Pela primeira vez, a ciência conseguiu prever fases oníricas em tempo real, monitorando sinais cerebrais enquanto o voluntário ainda dormia.
Distúrbios como sonambulismo, terror noturno e pesadelos recorrentes poderão ser diagnosticados com muito mais precisão, sem a distorção imposta pela memória fragmentada do paciente ao acordar.
Treze países, quinhentos voluntários, um banco de dados histórico
A escala do projeto DREAM é o que o diferencia de estudos anteriores. Dados de 13 países foram integrados em um único acervo, permitindo análises que cruzam diferenças culturais, fisiológicas e de hábitos de sono.
Cinco centenas de voluntários passaram por noites monitoradas, com eletrodos registrando cada oscilação cerebral. O volume de informação gerado ultrapassou 2.600 registros individuais.
Estudos menores sobre sono frequentemente chegavam a conclusões contraditórias porque dependiam de amostras pequenas, sujeitas a variações individuais. O DREAM reduziu essa margem de erro de forma significativa.
O que a mente nunca para de fazer
A pergunta que o projeto DREAM deixa em aberto é mais profunda do que parece: se o cérebro mantém atividade consciente mesmo no sono mais profundo, o que exatamente significa descansar?
A neurociência sempre tratou o sono como o oposto da vigília. O estudo publicado na Nature sugere que essa oposição é uma simplificação. Sono e consciência coexistem em graus variáveis, e o cérebro oscila entre eles de formas que só agora começamos a mapear com precisão.
Giulio Bernardi e sua equipe do IMT School de Lucca não afirmam ter resolvido o enigma dos sonhos. O que afirmam é que a ciência estava olhando para o lugar errado ao restringir os sonhos à fase REM.
O próximo passo do projeto é usar os algoritmos de inteligência artificial para identificar quais regiões cerebrais sustentam essa vigília encoberta e por quanto tempo ela persiste ao longo de uma noite típica de sono. Os dados já existem. Agora falta decodificá-los.



