
A vista que inspirou 'America the Beautiful' em 1893
Em 1893, uma professora de inglês de 33 anos embarcou num trem a vapor em Massachusetts com destino ao Oeste americano. Ela se chamava Katharine Lee Bates, lecionava no Wellesley College, e não tinha ideia de que aquela viagem produziria um dos hinos patrióticos mais conhecidos dos Estados Unidos.
A professora que foi para o Oeste
A convite do Colorado College, Bates viajou até Colorado Springs para liderar uma sessão de verão. O estado tinha se tornado parte da União apenas 17 anos antes, e a própria faculdade mal completava duas décadas de existência. Era um período turbulento: o presidente Grover Cleveland enfrentava seu segundo mandato, a bolsa de valores americana despencava e o desemprego batia recordes.
Mesmo assim, Bates estava animada. Ela queria ver a vastidão da fronteira americana.
Ao chegar em Colorado Springs, a professora ficou imediatamente encantada. Em seu diário, registrou: 'Fomos levados a Manitou, ao Jardim dos Deuses, a cânions e cascatas incontáveis, tudo tão maravilhoso que nosso estoque de exclamações acabou. Um verão encantado!' A frase foi citada pela biógrafa Melinda M. Ponder no livro Katharine Lee Bates: From Sea to Shining Sea.
Leah Davis Witherow, curadora de história do Colorado Springs Pioneers Museum, explica que aquela época tinha uma relação especial com a paisagem. 'Era a era do pitoresco, então essa cenografia teria sido de uma fascinação intensa para ela. Seria emocionante e estranha, e deve ter inspirado reverência', afirmou Witherow.
Por que ela recusou o trem
O Cog Railway, ferrovia de cremalheira que sobe o Pikes Peak, havia sido construído recentemente. Seria a opção mais cômoda para alcançar o topo da montanha. Bates e seus companheiros recusaram.
Ela preferiu subir de carruagem puxada por cavalos, pelo caminho de terra, numa escolha que Witherow descreve como uma busca por uma experiência mais pioneira e nostálgica. A decisão dizia muito sobre o espírito da viagem.
O Pikes Peak tem 4.394 metros de altura (14.415 pés). A subida pela estrada de carruagem era lenta e sacudida.
Na metade do caminho, os cavalos cansados foram substituídos por mulas de passos firmes, que continuaram o esforço até o topo. Um dos professores do grupo desmaiou assim que chegou ao cume, por causa da altitude. A visita foi cortada abruptamente.
Mas antes de descer às pressas, Bates teve tempo de absorver a paisagem. 'A mais gloriosa cena que já contemplei', ela escreveu no diário.
O poema que virou hino
A vista do Pikes Peak chegou num momento em que Bates já carregava impressões acumuladas de toda a viagem de trem: as planícies do Kansas, os campos de milho e trigo, a imensidão do interior americano. Tudo isso se fundiu naquele panorama do cume.
De volta ao hotel, ela rascunhou um poema de quatro estrofes intitulado simplesmente 'America'. Em julho de 1895, o texto foi publicado no jornal semanal de Boston. Em 1910, recebeu uma composição musical de Samuel A. Ward e ganhou o título definitivo: 'America the Beautiful'.
Os versos mais conhecidos nasceram diretamente daquela vista: O beautiful for spacious skies / For amber waves of grain / For purple mountain majesties / Above the fruited plain!
Mas o poema não é apenas um elogio à paisagem. Witherow aponta que Bates também critica o imperialismo e as desigualdades da Era Dourada americana. 'Ela está chamando atenção para o imperialismo, a riqueza e as iniquidades da América. Porque ela ama a América, ela quer que o país esteja à altura de seus ideais', explicou a curadora.
A trilha ainda existe
Hoje, 133 anos depois, o Pikes Peak continua sendo a montanha mais visitada dos Estados Unidos. O Cog Railway ainda opera, agora com trens diesel-elétricos nos trilhos que foram modernizados ao longo das décadas.
Para quem prefere algo mais próximo da experiência de Bates, existe a Barr Trail: 21 quilômetros de subida com um ganho de 2.255 metros de elevação. A trilha começa em Manitou Springs e vai até o cume. É considerada uma das mais exigentes da região, especialmente pelo ar rarefeito.
A temporada ideal para a caminhada vai de junho a setembro. Em dias claros, do topo é possível enxergar cinco estados: Kansas, Nebraska, Oklahoma, Novo México e Wyoming.
Em 3 de julho de 2026, data do 250º aniversário da independência americana, o artigo original que descreve essa jornada foi publicado pela BBC Travel, reacendendo o interesse pela história de Bates.
O que ela deixou registrado
Katharine Lee Bates tinha 33 anos quando subiu o Pikes Peak. Ela voltou para Massachusetts, publicou o poema dois anos depois e continuou ensinando literatura inglesa no Wellesley College.
O Colorado só tinha se tornado estado americano 17 anos antes da visita dela. A ferrovia que ela recusou usar tinha acabado de ser inaugurada. E a montanha que ela escolheu subir de carruagem já era chamada, informalmente, de 'a montanha da América'.
A frase final do hino, from sea to shining sea, resume o que ela viu do alto dos 4.394 metros: um país vasto, imperfeito e, naquele momento específico, de uma beleza que ela não conseguiu guardar só para si.

