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Psicologia & Sociedade 4 min14 de jun. de 2026

Pessoas solitárias têm memória pior, mas não decaem mais rápido

Por anos, a solidão na terceira idade foi associada a um risco maior de demência e declínio cognitivo acelerado. Um estudo europeu de longo prazo, no entanto, encontrou um resultado mais nuançado, e, para os próprios pesquisadores, surpreendente.

A pesquisa usou dados do SHARE (Survey of Health, Ageing and Retirement in Europe), um projeto de longa duração iniciado em 2002, e acompanhou 10.217 adultos entre 65 e 94 anos, de 12 países europeus, ao longo de sete anos, entre 2012 e 2019. O SHARE é um dos maiores levantamentos longitudinais sobre envelhecimento já conduzidos no continente, reunindo dados repetidos de saúde física, cognitiva e social dos mesmos participantes ao longo do tempo, o que permite observar mudanças individuais, e não apenas comparações entre grupos diferentes em um único momento.

Como a solidão foi medida

Para classificar o nível de solidão de cada participante, os pesquisadores usaram três perguntas simples, aplicadas repetidamente ao longo do estudo: "você sente falta de companhia?", "você se sente deixado de lado?" e "você se sente isolado?". As respostas foram usadas para classificar cada pessoa em três grupos, solidão baixa, média ou alta, e a equipe excluiu do estudo qualquer participante com histórico de demência ou com dificuldades relevantes em atividades do dia a dia, como caminhar, comer ou cuidar da própria higiene, para evitar que outros problemas de saúde contaminassem os resultados sobre memória.

Esse cuidado metodológico é importante porque doenças físicas e cognitivas preexistentes poderiam, por si só, explicar tanto a solidão quanto os problemas de memória, dificultando a interpretação de uma relação direta de causa e efeito entre os dois fatores.

Pior no ponto de partida, não na velocidade

Os pesquisadores, liderados por Luis Carlos Venegas-Sanabria, da Universidad del Rosario, na Colômbia, com colaboradores da Espanha e da Suécia, descobriram que pessoas solitárias já começavam o estudo com pontuações mais baixas em testes de memória.

Mas, ao longo dos sete anos de acompanhamento, essas mesmas pessoas perderam memória no mesmo ritmo que os participantes que relatavam pouca ou nenhuma solidão, ou seja, a diferença inicial não cresceu com o tempo.

No início do estudo, 92% dos participantes relatavam níveis baixos ou médios de solidão, enquanto 8% se enquadravam no grupo de solidão alta. Essa proporção variou bastante entre regiões da Europa: os níveis mais altos de solidão apareceram no sul do continente (12%), seguidos pelo leste europeu (9%) e pelo norte (9%), com a região central apresentando a menor proporção (6%). O grupo mais solitário também era, em média, mais velho, majoritariamente feminino e apresentava mais problemas de saúde em geral, incluindo taxas mais altas de depressão, hipertensão e diabetes.

“Um resultado surpreendente”, segundo o próprio autor

"A descoberta de que a solidão impactou significativamente a memória, mas não a velocidade do declínio da memória ao longo do tempo, foi um resultado surpreendente", afirmou Venegas-Sanabria sobre os achados, publicados em 14 de abril de 2026 na revista Aging & Mental Health.

Por que essa diferença importa

A solidão já é reconhecida como um problema sério de saúde pública, associada a impactos na expectativa de vida, saúde física e saúde mental. O novo estudo não nega esses riscos, mas sugere que a relação entre solidão e demência pode ser mais complexa do que "ficar sozinho acelera o esquecimento".

Uma hipótese é que pessoas solitárias já apresentem outros fatores associados a pior desempenho cognitivo desde antes, como menos estimulação social no dia a dia, mas isso não significa necessariamente que a solidão continue "corroendo" a memória ano após ano de forma mais rápida.

Uma limitação reconhecida pelos próprios autores

Os próprios pesquisadores apontam uma limitação importante do desenho do estudo: a solidão foi tratada, na análise estatística, quase como um traço fixo de cada participante, quando na realidade o sentimento de solidão costuma variar ao longo da vida, conforme mudanças pessoais e do ambiente, como a perda de um cônjuge, a mudança de cidade ou o surgimento de uma doença, por exemplo. Isso significa que a relação real entre solidão e memória pode ser ainda mais dinâmica do que a fotografia captada pelo estudo.

Outra limitação apontada pelos autores é que as três perguntas usadas para medir solidão, embora práticas para um estudo com milhares de participantes, não captam nuances importantes, como a diferença entre estar fisicamente sozinho e se sentir emocionalmente desconectado mesmo cercado de pessoas, uma distinção que pesquisas futuras poderão explorar com instrumentos mais detalhados.

O que isso muda na prática

Para os pesquisadores, o achado reforça a importância de tratar a solidão como uma questão de bem-estar em si mesma, sem depender apenas do argumento de que ela "causa" demência para justificar políticas públicas de conexão social entre idosos.

Uma das sugestões práticas levantadas pela equipe é incluir perguntas simples sobre solidão, como as usadas no próprio estudo, em exames de rotina voltados à saúde cognitiva de idosos, permitindo identificar precocemente pessoas em situação de maior vulnerabilidade social e encaminhá-las a programas de convívio comunitário, mesmo sem a garantia de que isso vá desacelerar um declínio de memória já em curso.

Os autores também apontam que programas de convívio social para idosos, mesmo sem efeito comprovado sobre a velocidade do declínio de memória, já se justificam por seus benefícios mais amplos sobre saúde mental, qualidade de vida e senso de pertencimento, o que reforça a solidão como uma prioridade de saúde pública independente de sua relação direta com a demência.

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