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Psicologia & Sociedade 5 min14 de jul. de 2026

Dois tipos de memória usam o mesmo circuito no cérebro, mostra estudo

Durante décadas, a neurociência tratou como certo que o cérebro guarda "lembrar fatos" (como a capital da França) e "lembrar experiências pessoais" (como seu último aniversário) em circuitos separados. Um novo estudo britânico acaba de colocar essa ideia em xeque.

A pesquisa, conduzida por equipes da Universidade de Nottingham e da Universidade de Cambridge e publicada em 27 de janeiro de 2026 na revista Nature Human Behaviour, descobriu que a memória episódica (eventos vividos) e a memória semântica (fatos gerais) ativam redes cerebrais quase idênticas.

Uma surpresa até para quem assinou a pesquisa

Roni Tibon, professora da Escola de Psicologia de Nottingham que liderou a investigação, admitiu que o resultado não era o esperado: "ficamos muito surpresos com os resultados", disse, destacando a "considerável sobreposição nas regiões cerebrais envolvidas na recuperação semântica e episódica".

A pesquisadora explicou que a expectativa inicial da equipe vinha de "uma longa tradição de pesquisa sugerindo diferenças na atividade cerebral" entre os dois tipos de recuperação de memória. Por isso o resultado chamou atenção: "qualquer diferença que observássemos era muito sutil", resumiu Tibon sobre a comparação direta entre os dois sistemas.

Como o teste foi montado

Para comparar os dois tipos de memória de forma justa, os pesquisadores recrutaram 40 participantes e criaram tarefas cuidadosamente equivalentes: recordar associações entre marcas e logotipos já conhecidas de antes (memória semântica) e recordar associações aprendidas durante o próprio experimento (memória episódica), tudo dentro de um scanner de ressonância magnética funcional.

O cuidado no desenho experimental foi essencial: em vez de comparar tarefas muito diferentes entre si, o que é comum em estudos anteriores sobre o tema, a equipe garantiu que a única diferença relevante entre as duas condições fosse justamente o tipo de memória sendo acessado, e não a dificuldade da tarefa ou o tipo de estímulo visual. Essa é uma das razões pelas quais relativamente poucos estudos, até hoje, examinaram os dois tipos de memória dentro do mesmo desenho experimental, o que reforça o peso do achado.

Os participantes passaram por sessões de treino antes do escaneamento, memorizando pares de marcas e logotipos criados especialmente para o estudo, de modo que nenhum deles pudesse recorrer a conhecimento prévio real ao responder às perguntas sobre a condição episódica.

Por que a separação antiga fazia sentido

A distinção entre memória episódica e semântica é um dos pilares mais antigos da psicologia cognitiva, útil para explicar, por exemplo, por que algumas pessoas com lesões cerebrais perdem a capacidade de reviver momentos pessoais mas continuam sabendo fatos gerais sobre o mundo.

O novo estudo não nega que essas diferenças existam na experiência subjetiva das pessoas, mas sugere que, em nível de redes cerebrais amplas, a separação é bem menos nítida do que se pensava.

Casos clínicos que inspiraram essa distinção ao longo do século 20 continuam válidos como evidência de que os dois tipos de memória podem, sim, ser afetados de forma diferente por lesões específicas. O que o novo estudo acrescenta é a ideia de que, em cérebros saudáveis, ambos os processos dependem, na maior parte do tempo, de uma infraestrutura neural amplamente compartilhada.

Uma pesquisa em equipe

Além de Roni Tibon, assinam o estudo os pesquisadores Andrea Greve, Gina Humphreys, Jörn Alexander Quent e Richard Henson, vinculados à Escola de Psicologia da Universidade de Nottingham e à Cognition and Brain Sciences Unit da Universidade de Cambridge, um dos centros de referência mundial em neurociência cognitiva do envelhecimento e da memória.

O que isso pode significar para o Alzheimer

Segundo os pesquisadores, entender essa sobreposição pode ajudar a desenvolver intervenções mais precisas para doenças como Alzheimer e outras formas de demência, que afetam a memória de formas complexas e muitas vezes desiguais entre fatos e lembranças pessoais.

Se as duas formas de memória dependem de redes cerebrais tão parecidas, tratamentos e estratégias de reabilitação cognitiva desenhados para fortalecer um tipo de memória poderiam, em tese, beneficiar também o outro, uma hipótese que a equipe espera testar em pesquisas futuras, agora com pacientes que já apresentam algum grau de comprometimento cognitivo.

Os próprios autores reconhecem que ainda é preciso replicar o achado com amostras maiores e mais diversas antes de tirar conclusões definitivas sobre aplicações clínicas, mas já apontam a sobreposição encontrada como um convite para repensar modelos de reabilitação que hoje tratam os dois tipos de memória de forma isolada.

O que muda para quem estuda a mente

Para pesquisadores de outras áreas da psicologia cognitiva, o achado também levanta questões sobre como os modelos teóricos tradicionais de memória, construídos majoritariamente a partir de casos clínicos raros, precisam ser revisitados à luz de dados de neuroimagem coletados em populações saudáveis e em maior escala.

Uma das perguntas que o estudo deixa em aberto é até que ponto essa sobreposição de redes cerebrais também aparece em outras funções cognitivas relacionadas à memória, como o reconhecimento de rostos ou a orientação espacial, áreas que tradicionalmente também são estudadas como sistemas relativamente independentes dentro do cérebro.

Uma cautela sobre generalizações apressadas

Apesar da repercussão do achado, os próprios pesquisadores recomendam cautela antes de tratar memória episódica e semântica como se fossem, na prática, a mesma coisa. A sobreposição encontrada diz respeito principalmente às redes cerebrais amplas ativadas durante a recuperação de informações, e não necessariamente a todos os aspectos do processamento de memória em nível mais detalhado.

Ainda assim, para uma área acostumada a tratar essas duas formas de memória como categorias bem delimitadas, o estudo representa um convite direto a reexaminar suposições que pareciam consolidadas há décadas na literatura científica.

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