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Animais 6 min04 de jul. de 2026

O dinossauro com crista de cimitarra achado no Saara

Em 2022, o paleontólogo Daniel Vidal estava escavando sob o sol do deserto do Saara, no Níger, quando avistou um osso saindo do solo. A princípio parecia uma vértebra comum de dinossauro. Após inspeção mais cuidadosa, a equipe percebeu que se tratava de uma crista craniana curva, semelhante a uma lâmina de espada. 'Foi incrível', relatou Vidal, da Universidade de Chicago. 'Parecia um unicórnio.'

A crista pertencia a uma espécie totalmente nova: o Spinosaurus mirabilis, batizado com o epíteto latino que significa 'admirável' ou 'maravilhoso'. O achado foi publicado em fevereiro de 2026 na revista científica Science e reacendeu um dos debates mais acalorados da paleontologia: afinal, os Espinossauros nadavam?

O sítio que a areia quase engoliu

O local da descoberta se chama Jenguebi, numa região remota do Níger que a comunidade tuaregue local denomina Sirig Taghat, expressão que se traduz como 'Sem água, sem cabra'. Hoje é um ambiente seco e árido, com poucas árvores e areia infinita. Há 95 milhões de anos, porém, era um ecossistema fluvial exuberante, cortado por rios e habitado por uma fauna diversa.

Paul Sereno, paleontólogo da Universidade de Chicago e Explorador da National Geographic, foi atraído para a região por um relato do geólogo francês Hugues Faure. Na década de 1950, Faure havia encontrado um dente de dinossauro no Níger e documentou o achado. Décadas depois, Sereno decidiu procurar sítios semelhantes. 'Eu sabia que era como procurar uma agulha no palheiro', afirma ele. 'Poderia facilmente ter sido engolido pela areia.'

Guiados por Abdul Nasser, um guia local que percorria o deserto de moto, Sereno e Vidal visitaram Jenguebi pela primeira vez em 2019 e encontraram uma mandíbula de Espinossauro. Ao retornarem em 2022, identificaram fósseis de três indivíduos de S. mirabilis, além de restos de outro dinossauro predador chamado Carcharodontosaurus, dois saurópodes de pescoço comprido, crocodilos, tartarugas e uma espécie de peixe de água doce que podia atingir 3,6 metros de comprimento.

Encontrar tantos esqueletos parciais desse período na África é raro. Matt Lamanna, paleontólogo do Museu Carnegie de História Natural em Pittsburgh e Explorador da National Geographic, que não participou da pesquisa, classificou o sítio como 'algo para se ficar realmente muito entusiasmado'.

A crista que rivaliza com a de qualquer ave moderna

Nenhuma espécie conhecida de espinossaurídeo possuía uma crista craniana tão imponente quanto a do S. mirabilis. A equipe a compara a uma cimitarra: uma lâmina curva, longa e afilada. Revestida por uma bainha de queratina, ela pode ter se projetado ainda mais para cima do que a reconstrução do crânio sugere, criando uma silhueta marcante combinada à famosa vela dorsal espinhosa do animal.

Qual seria a função de uma estrutura tão vistosa? A hipótese mais aceita entre os pesquisadores é a de exibição. 'Era uma espécie de sinal para outros membros da sua espécie, seja para dizer Ei, eu seria um ótimo parceiro ou Saia do meu território. Eu sou o cara mais forte e poderoso daqui', explica Lamanna.

Sereno compara a crista à da galinha-d'angola atual e observa que, em ambientes de costa ou margem de rio, onde se pode enxergar a mais de 400 metros de distância, uma silhueta marcante teria alto valor de comunicação. Se havia diferença na crista entre machos e fêmeas do S. mirabilis, os pesquisadores ainda não sabem. Os fósseis disponíveis não permitem essa distinção.

Dentes que funcionavam como armadilha para peixes

Além da crista, os novos espécimes confirmaram algo já suspeitado sobre os Espinossauros: seus dentes cônicos se interligavam de maneira semelhante aos de crocodilos modernos e de répteis aquáticos extintos como os plesiossauros. Quando o animal capturava um peixe, os dentes perfuravam a presa escorregadia e a prendiam no lugar.

'Somente o Espinossauro, entre os dinossauros, possuía com seus dentes uma armadilha para peixes', afirma Vidal.

Evidências químicas extraídas dos dentes mostram que o Espinossauro se alimentava principalmente de peixes, mas também caçava outros dinossauros. Isso pode indicar tanto uma inclinação para o ambiente terrestre quanto um predador fluvial que atacava animais que tentavam atravessar rios ou beber água.

O debate que não se resolve com um fóssil

O Spinosaurus carrega um histórico complicado. Descoberto na década de 1910, os primeiros fósseis escavados pelos paleontólogos foram destruídos quando os Aliados bombardearam Munique durante a Segunda Guerra Mundial. Décadas de lacunas no registro fóssil dificultaram qualquer conclusão sólida sobre seu comportamento.

Em 2014, quando pesquisadores anunciaram a descoberta de fósseis de Spinosaurus aegyptiacus de 97 milhões de anos nos depósitos de Kem Kem, no Marrocos, a equipe liderada por Nizar Ibrahim, paleontólogo da Universidade de Portsmouth, argumentou que a espécie passava grande parte da vida na água, sendo possivelmente o primeiro dinossauro nadador conhecido. A ideia dividiu a comunidade científica.

O S. mirabilis é o Espinossauro encontrado mais distante do litoral: Jenguebi fica a centenas de quilômetros do que teria sido o oceano mais próximo. Sereno e sua equipe argumentam que isso reforça a ideia de que o animal 'caminhava' na água, como uma garça ou cegonha, em vez de nadar ativamente. A análise comparativa de crânio, pescoço e patas traseiras do S. mirabilis com aves, crocodilos e répteis sugere que os Espinossauros se assemelhavam mais a aves pernaltas do que a crocodilos.

'Acho que o argumento está se consolidando, tanto funcionalmente quanto a partir do trabalho de campo, de que esses eram animais gigantes, semelhantes a garças, exibindo-se e atacando peixes', diz Sereno.

Ibrahim discorda. 'Essas aves pernaltas têm pernas extremamente longas. Elas têm corpos muito leves, o que é completamente o oposto do que vemos no Espinossauro', rebate ele. Pernas longas permitem que as aves evitem respingos e surpreendam suas presas, algo difícil para um animal que pesava mais de 6 toneladas.

Lamanna prefere deixar a questão em aberto. 'E se ele fizesse as duas coisas? E se às vezes caminhasse na água? E se entrasse na água e nadasse um pouco? O denominador comum é a emboscada, seja da costa ou da água.' Para ele, a ideia de um Espinossauro perseguindo presas como um golfinho ou um atum é improvável. Mas curtas investidas subaquáticas não parecem impossíveis.

Mais fósseis a caminho

O paleontólogo Thomas Holtz Jr., da Universidade de Maryland, compara os esforços para decifrar o comportamento do Espinossauro a uma parábola em que dois estudiosos cegos tocam um elefante pela primeira vez: um toca a tromba e a chama de cobra, outro toca a pata e a chama de tronco de árvore. 'Só que, neste caso, o elefante foi reduzido a pedacinhos', resume Holtz.

Sereno afirma ter descoberto um espinossaurídeo não identificado no Brasil. Ibrahim, por sua vez, indica que sua equipe analisa novas descobertas que sugerem que o animal 'era ainda mais aquático do que pensávamos anteriormente'.

O Spinosaurus mirabilis viveu há 95 milhões de anos num ecossistema fluvial que hoje é pura areia. Sua crista em forma de cimitarra pode ter intimidado rivais ou atraído parceiros. O que exatamente ele fazia às margens daqueles rios antigos, a ciência ainda não sabe responder.

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