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Animais 5 min04 de jul. de 2026

O animal de mandíbula torta de 275 milhões de anos achado no Brasil

Num leito de rio seco dentro de uma floresta próxima à Amazônia, paleontólogos escavaram um fragmento de mandíbula fossilizada de uma espécie que ninguém havia descrito antes. À medida que a equipe continuou o trabalho, mais oito mandíbulas similares foram aparecendo, cada uma com cerca de 15 centímetros de comprimento. Nenhum outro osso que pudesse compor um esqueleto completo foi localizado junto a elas.

Esses nove fragmentos foram suficientes para revelar o Tanyka amnicola, um animal que viveu há aproximadamente 275 milhões de anos, durante o início do Período Permiano, e que já era considerado um anacronismo vivo em sua própria época.

O nome que vem de uma língua indígena

A espécie foi formalmente descrita em estudo publicado no periódico Proceedings of the Royal Society B. O nome Tanyka vem da língua indígena Guaraní e significa 'mandíbula'. Já amnicola é uma palavra latina que significa 'aquele que vive às margens do rio'. Juntos, os termos resumem bem o que os pesquisadores sabem sobre o animal: ele tinha uma mandíbula singular e habitava ambientes de água doce.

A descoberta envolveu pesquisadores de várias instituições, entre elas o Field Museum de Chicago, a Universidade Federal do Piauí (UFPI) e a Universidade de Vilnius, na Lituânia.

Uma torção que confundiu os cientistas por anos

O traço mais imediato do Tanyka é a mandíbula retorcida. Ao contrário dos dentes humanos, que apontam para cima em direção ao céu da boca, os dentes do Tanyka eram voltados para os lados. Ao mesmo tempo, a superfície interna da mandíbula inferior, aquela que em humanos fica virada para a língua, estava orientada para cima, coberta por pequenos dentes chamados dentículos, formando uma área de trituração parecida com um ralador de queijo.

Jason Pardo, pesquisador do Field Museum de Chicago e autor principal do estudo, descreveu a perplexidade inicial da equipe: 'A mandíbula tem essa torção estranha que nos deixou loucos tentando entender. Ficamos coçando a cabeça por anos, nos perguntando se era algum tipo de deformação. Mas neste ponto temos nove mandíbulas desse animal, e todas têm essa torção, incluindo as mais bem preservadas. Portanto, não é uma deformação; é simplesmente como o animal era feito.'

Essa estrutura de trituração dente a dente é típica de animais que processam material vegetal. Juan Carlos Cisneros, pesquisador da UFPI e coautor do trabalho, afirma que 'com base nos dentes, acreditamos que o Tanyka era um herbívoro e que comia plantas pelo menos parte do tempo'.

A maioria dos tetrápodes primitivos daquela época era carnívora.

Um remanescente ancestral no mundo do Permiano

O Tanyka pertencia ao grupo dos tetrápodes basais, os chamados tetrápodes-tronco. Esses animais formam a base da grande árvore evolutiva dos vertebrados de quatro membros, que inclui répteis, aves, mamíferos e anfíbios.

Milhões de anos antes do Tanyka, esse grupo ancestral se dividiu em dois grandes ramos. Um deles evoluiu para depositar ovos em terra firme, dando origem a répteis, aves e mamíferos. O outro continuou a depositar ovos na água, originando os anfíbios modernos como sapos e salamandras.

O Tanyka, porém, era um remanescente do grupo original, que persistia lado a lado com os descendentes mais modernos. Pardo usa uma comparação direta: 'No sentido de que o Tanyka era um membro remanescente da linhagem dos tetrápodes-tronco, mesmo depois de tetrápodes mais modernos terem evoluído, o Tanyka é um pouco como um ornitorrinco. Era um fóssil vivo em seu tempo.'

O ornitorrinco atual ainda bota ovos, característica retida de mamíferos ancestrais, enquanto a grande maioria dos mamíferos modernos já evoluiu para o parto vivo.

O que se sabe sobre o corpo do animal

A ausência de ossos além das mandíbulas torna difícil descrever o Tanyka com precisão. Ken Angielczyk, curador de paleomamalogia do Field Museum de Chicago e orientador de Pardo durante seu pós-doutorado, explica a limitação: 'Encontramos essas mandíbulas isoladas, e elas são muito estranhas e muito distintas. Mas até encontrarmos uma delas conectada a um crânio ou a outros ossos definitivamente associados à mandíbula, não podemos afirmar com certeza que os outros ossos que encontramos perto dela pertencem ao Tanyka.'

Com base em comparações com espécies relacionadas, os pesquisadores acreditam que o animal pode ter se assemelhado a uma salamandra com focinho ligeiramente mais longo. As estimativas de tamanho sugerem que ele poderia ter chegado a cerca de 90 centímetros de comprimento. As rochas ao redor dos fósseis indicam que o animal provavelmente habitava lagos e ambientes de água doce.

A formação geológica que guarda a janela para Gondwana

Os fósseis foram encontrados na Formação Pedra de Fogo, no estado do Piauí. Há 275 milhões de anos, essa região fazia parte de Gondwana, o supercontinente que reunia América do Sul, África, Austrália e Antártida.

Fósseis desse período e dessa localização geográfica são escassos em comparação com os encontrados no hemisfério norte. Angielczyk destaca a relevância do sítio: 'A Formação Pedra de Fogo no Brasil é uma das únicas janelas que temos para os animais de Gondwana durante o Período Permiano inicial da história da Terra, e o Tanyka nos fala sobre como essa comunidade realmente funcionava, como era estruturada e quem comia o quê.'

A descoberta ajuda a preencher lacunas sobre os ecossistemas do Permiano inicial no hemisfério sul, período ainda pouco compreendido em comparação com regiões mais estudadas.

A mandíbula como ferramenta de leitura do passado

Nove mandíbulas. Sem crânio, sem coluna, sem membros confirmados. Ainda assim, esses fragmentos foram capazes de revelar a dieta, a posição evolutiva e o habitat de uma criatura que viveu antes dos dinossauros existirem.

A estrutura de dentículos na superfície interna da mandíbula do Tanyka funcionava, segundo Pardo, como um ralador: 'Esperamos que os dentículos da mandíbula inferior estivessem esfregando contra dentes similares na parte superior da boca. Os dentes estariam raspando uns contra os outros, de uma forma que vai criar um modo de alimentação relativamente único.'

Esse modo de alimentação baseado em trituração leva os pesquisadores a classificar o Tanyka como um dos primeiros representantes conhecidos de comportamento herbívoro entre os tetrápodes primitivos de sua época.

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