
Homens 'batem na parede' na maratona duas vezes mais que mulheres
Um estudo publicado na revista Scientific Reports analisou os tempos de corrida de 873.334 atletas que completaram a Maratona de Berlim entre 1995 e 2025, e chegou a uma conclusão que virou de cabeça para baixo algumas suposições do esporte de resistência: homens têm aproximadamente o dobro de probabilidade de 'bater na parede' durante uma maratona em comparação com mulheres.
O fenômeno de 'bater na parede', conhecido em inglês como hitting the wall ou bonking, ocorre quando o corpo esgota suas reservas de glicogênio, o combustível preferido dos músculos. O resultado é uma fadiga avassaladora, exaustão extrema e incapacidade de manter o ritmo. Para os pesquisadores, um corredor havia 'batido na parede' quando seu ritmo desacelerava pelo menos 20% na segunda metade da prova em relação à primeira, o que os especialistas chamam de positive splitting.
O dado que virou a lógica esportiva de cabeça para baixo
Se a diferença geral entre homens e mulheres já era expressiva, o recorte entre os corredores mais velozes revelou algo ainda mais desconcertante. Homens que terminaram a maratona em menos de três horas, tempo próximo ao necessário para se qualificar para a Maratona de Boston na categoria masculina, tinham seis vezes mais probabilidade de bater na parede do que mulheres igualmente rápidas.
Esse foi o achado que mais surpreendeu o co-autor do estudo, Aldo Seffrin, fisiologista do exercício na Nova O2 Sports Science, em São José dos Campos, Brasil. 'Eu esperava que experiência e treinamento reduzissem a diferença no topo, e em vez disso ela aumentou', afirmou Seffrin. 'Isso me diz que falhar no ritmo não é simplesmente um erro de principiante.'
A expectativa convencional seria que atletas mais treinados e experientes controlassem melhor o esforço ao longo dos 42 quilômetros. A realidade observada nos dados contradiz essa lógica de forma bastante direta.
Gordura como combustível: a vantagem feminina
A causa principal de bater na parede é o esgotamento do glicogênio, a forma armazenada de glicose no organismo. Quando as reservas caem abaixo de um nível crítico, o corpo passa a depender da gordura como fonte de energia, mas converter gordura em combustível utilizável é um processo lento e pouco eficiente durante o esforço intenso.
Por que as mulheres resistem melhor a esse colapso metabólico?
Parte da resposta está na forma como o organismo feminino processa energia durante exercícios de resistência. Segundo Seffrin, mulheres tendem a oxidar gordura em taxas mais elevadas e apresentam uma razão de troca respiratória menor durante exercícios submáximos de endurance, como a maratona. Em termos práticos, isso significa que elas queimam mais gordura como combustível e poupam o glicogênio por mais tempo.
Há também a questão das fibras musculares. Mulheres possuem uma proporção maior de fibras musculares do tipo 1, também chamadas de fibras de contração lenta. Essas fibras utilizam oxigênio de forma eficiente para resistir à fadiga, sendo especialmente adequadas para esportes de longa duração.
Além disso, o hormônio estradiol, presente em concentrações mais altas nas mulheres, participa ativamente na queima de gordura e na conservação de carboidratos durante o exercício prolongado. Esse conjunto de fatores biológicos pode também explicar por que a diferença de desempenho entre homens e mulheres tende a ser menor em ultramaratonas do que em provas mais curtas.
Uma ciência construída sobre corpos masculinos
Seffrin é direto ao reconhecer os limites do conhecimento atual: 'A resposta honesta é que grande parte da fisiologia do exercício foi construída com base em sujeitos do sexo masculino, então vários mecanismos são simplesmente menos bem caracterizados nas mulheres.'
Essa lacuna científica tem consequências práticas. Sem dados robustos sobre como o corpo feminino responde ao esforço extremo, é difícil separar o que é estratégia de corrida do que é biologia. O estudo aponta o caminho, mas não fecha a questão.
A equipe de Seffrin planeja combinar dados de corrida com informações adicionais sobre cada atleta, incluindo fatores psicológicos e fisiológicos, para entender se as diferenças de ritmo e de bater na parede decorrem principalmente da estratégia de prova ou da biologia. Outro ponto da agenda futura é incluir corredores que não terminaram a prova, porque analisar apenas os finishers provavelmente subestima a frequência real com que os atletas batem na parede.
A estratégia que os dados sugerem
Um bom gerenciamento de ritmo é central para evitar o colapso energético. Correr em velocidade constante e sustentável permite que o organismo use a energia de forma mais eficiente, reduzindo as chances de esgotar o glicogênio antes da linha de chegada.
Seffrin e sua equipe sugerem que os homens poderiam reduzir o risco de bater na parede adotando o chamado negative splitting, estratégia em que a segunda metade da corrida é percorrida em ritmo mais acelerado do que a primeira. Correr mais devagar no início e aumentar gradualmente o esforço ao longo da prova preserva as reservas energéticas para os quilômetros finais.
Essa abordagem vai contra o impulso natural de muitos corredores, especialmente os mais rápidos, que tendem a sair forte desde o início. Os dados de 873 mil maratonistas mostram que esse impulso tem um custo metabólico alto, e que ele afeta homens de forma desproporcionalmente intensa.
'Melhor caracterização da fisiologia específica das mulheres, em conjuntos de dados que realmente a incluam, é o que nos permitiria passar do 'o quê' para o 'por quê'', concluiu Seffrin.



