Quizpedia
← Voltar para curiosidades
História 4 min03 de jul. de 2026

E se Cartago tivesse vencido Roma? O podcast que responde

As Guerras Púnicas, travadas entre a República Romana e Cartago de 264 a 146 a.C., foram um dos confrontos mais decisivos da Antiguidade. Roma venceu. Mas e se não tivesse vencido?

Essa pergunta é o ponto de partida do episódio mais recente do podcast 'Almost History', produzido pela revista All About History e publicado em junho de 2026. O episódio, intitulado 'What If Carthage Won the Punic Wars?', reúne a apresentadora Emily Staniforth e a historiadora e arqueóloga Eve MacDonald, professora sênior de história antiga na Universidade de Cardiff, no Reino Unido, e autora do livro 'Carthage: A New History of an Ancient Empire', publicado pela W. W. Norton & Co. em 2026.

Cartago tinha poder de sobra, mas enfrentava um adversário resiliente

MacDonald deixa claro que Cartago não era uma potência frágil. 'Cartago tinha recursos enormes, porque só o fato de ter aguentado tanto tempo já é extraordinário', ela afirma no podcast. A cidade-estado fenícia do norte da África controlava rotas comerciais pelo Mediterrâneo, possuía uma marinha poderosa e mobilizou generais de grande talento, entre eles Aníbal Barca.

Foi Aníbal quem protagonizou o momento mais próximo de uma vitória cartaginesa. Durante a Segunda Guerra Púnica, o general cruzou os Alpes com elefantes de guerra e infligiu derrotas devastadoras aos exércitos romanos, levando a República à beira do colapso. Mesmo assim, Roma se recuperou.

Para MacDonald, esse padrão revela algo estrutural sobre Roma. 'Sempre acho que os romanos provavelmente nunca iriam desaparecer', ela disse em entrevista à Live Science. Mesmo derrotada militarmente em campo aberto, Roma tinha uma capacidade de reorganização que tornava sua extinção improvável.

O Mediterrâneo que poderia ter sido outro

Se Cartago tivesse prevalecido, o que mudaria? O episódio do 'Almost History' explora os pontos de virada políticos e militares que poderiam ter inclinado a balança para o lado cartaginês. MacDonald e Staniforth discutem como uma vitória de Cartago teria alterado o comércio, a cultura e a distribuição de poder pela Europa e pelo Mediterrâneo.

Um dos argumentos centrais de MacDonald é que a derrota de Cartago apagou narrativas inteiras da história ocidental. 'Acho que isso é algo que apreciaríamos mais hoje: assim como a história greco-romana do Mediterrâneo faz parte do mundo ocidental, também fazem parte Cartago, a Fenícia e a Numídia no norte da África', ela disse. 'Mas não temos mais essas histórias para entender.'

A Numídia era um reino berbere no norte da África que foi aliado e depois inimigo de Cartago. A Fenícia, região do atual Líbano, foi a origem dos colonizadores que fundaram Cartago por volta do século IX a.C. Toda essa herança cultural foi sobreposta pela expansão romana após a destruição de Cartago em 146 a.C.

Cartago foi arrasada. As fontes antigas descrevem a demolição sistemática da cidade pelos romanos após a Terceira Guerra Púnica.

O podcast e seu método

O 'Almost History' é uma série de podcast inspirada na seção de longa data 'What If' da revista All About History. Cada episódio convida historiadores a examinar momentos decisivos do passado e considerar como resultados diferentes teriam remodelado o mundo.

Episódios anteriores abordaram questões como 'E se o Dia D tivesse fracassado?' e 'E se a Revolução Bolchevique nunca tivesse acontecido?'. O podcast está disponível na plataforma Acast e em outras plataformas de streaming de áudio.

A Live Science, veículo que divulgou o episódio em junho de 2026, é uma publicação irmã da All About History, ambas pertencentes ao grupo Future. A plataforma Live Science Plus contava, à época da publicação, com mais de 25 mil membros ativos.

Aníbal, os elefantes e o quase-fim de Roma

A travessia dos Alpes por Aníbal com elefantes de guerra permanece um dos episódios mais estudados da história militar antiga. A campanha, iniciada por volta de 218 a.C., resultou em vitórias cartaginesas expressivas, incluindo a Batalha de Canas em 216 a.C., considerada por muitos historiadores uma das maiores derrotas táticas da história romana.

Na Batalha de Canas, estima-se que Roma perdeu entre 50 mil e 70 mil soldados em um único dia de combate. Mesmo assim, a cidade não capitulou.

Recrutou novos exércitos, adotou táticas diferentes e, eventualmente, levou a guerra ao território africano sob o comando de Cipião Africano. A vitória romana na Batalha de Zama, em 202 a.C., encerrou a Segunda Guerra Púnica e selou o declínio de Cartago como potência militar.

Por que essa pergunta ainda importa

A história contrafactual, ou seja, o exercício de imaginar o que teria acontecido se eventos-chave tivessem tomado outro rumo, é uma ferramenta legítima usada por historiadores para compreender as forças que moldaram o passado. Ao perguntar por que Roma venceu, é possível identificar quais fatores foram decisivos e quais poderiam ter sido diferentes.

MacDonald argumenta que a vitória romana não foi inevitável do ponto de vista cartaginês. Cartago tinha recursos, estratégia e generais talentosos. O que faltou, segundo ela, foi a combinação de fatores que Roma soube explorar: a capacidade de absorver derrotas sem desintegrar-se politicamente e a habilidade de transformar aliados itálicos em força de combate coesa.

O episódio do 'Almost History' não oferece uma resposta definitiva sobre como seria o mundo com uma Cartago vitoriosa. Mas coloca no centro do debate uma civilização cujas histórias foram em grande parte silenciadas pela própria vitória de Roma.

Em 146 a.C., quando Cartago foi destruída, desapareceram junto com ela registros, tradições e perspectivas que nunca foram recuperados.

Leia também