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História 4 min03 de jul. de 2026

Como os romanos construíam estradas tão retas sem GPS?

A Via Appia, que ligava Roma ao porto de Brundisium no sul da Itália, tinha mais de 500 quilômetros de extensão. Boa parte desse trajeto era notavelmente reta, atravessando planícies e colinas sem grandes desvios. Construída séculos antes de qualquer instrumento de precisão moderno, essa estrada ainda existe e é percorrida por turistas hoje.

A rede viária romana era uma das maiores obras de engenharia da Antiguidade. Um projeto recente de mapeamento conseguiu registrar cerca de 300 mil quilômetros de estradas romanas, e pesquisadores acreditam que muitos trechos ainda permanecem por descobrir, segundo dados publicados pela Live Science.

Os três instrumentos que tornavam tudo possível

A resposta para a precisão das estradas romanas está em três ferramentas de topografia descritas por Adriana Panaite, pesquisadora do Instituto de Arqueologia Vasile Pârvan, na Romênia: a dioptra, o chorobatus e a groma.

A dioptra era um instrumento óptico de mira. Consistia em um suporte vertical com uma base em forma de disco e um tubo acoplado por onde o topógrafo olhava para um ponto distante. O tubo bloqueava a luz lateral, permitindo uma visão mais precisa do alvo.

Nenhum exemplar físico da dioptra foi encontrado em escavações arqueológicas até hoje, embora o instrumento seja descrito em textos antigos.

O chorobatus servia para medir planos horizontais. Com cerca de seis metros de comprimento, era uma viga de madeira sobre pernas, parecida com uma mesa baixa. Pesos pendurados nas extremidades indicavam se a viga estava nivelada. Também não sobrou nenhum exemplar original, e os detalhes de seu uso ainda geram debate entre especialistas.

O instrumento mais importante, segundo o arqueólogo Joseph Lewis, da Universidade de Cambridge, era a groma.

A groma: o esquadro do Império Romano

A groma era uma haste vertical com uma cruz horizontal em formato de X no topo. Das quatro extremidades da cruz pendiam pequenos pesos presos a cordas. Esse conjunto simples permitia ao topógrafo estabelecer ângulos retos com precisão surpreendente.

O funcionamento era coletivo. Um topógrafo ficava em um ponto fixo enquanto outros se posicionavam à frente com suas próprias hastes. O responsável pela groma orientava os colegas a se moverem lateralmente até que todas as hastes ficassem alinhadas em linha reta, observadas pelos pesos em equilíbrio.

'Uma vez estabelecida a direção, os topógrafos romanos observavam a paisagem e ajustavam o traçado para contornar obstáculos, como trechos íngremes que dificultariam veículos com rodas, pontos de travessia de rios ou assentamentos já existentes', explicou Lewis.

Esse processo incremental, ponto a ponto, permitia que estradas longas mantivessem uma direção geral bastante reta, mesmo sem visão direta de uma extremidade à outra.

Nem toda estrada romana era reta

A reputação de retidão absoluta das estradas romanas é parcialmente exagerada. Tom Brughmans, arqueólogo clássico da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, que integrou a equipe responsável pelo mapeamento atualizado da rede viária romana, é direto sobre isso.

'Os romanos preferiam estradas relativamente retas onde havia pouca resistência topográfica', afirmou Brughmans. Em terrenos planos, a retidão era viável e vantajosa. Em regiões montanhosas, as estradas seguiam o relevo.

Brughmans aponta que, em geral, as estradas romanas tendem a ser menos retas do que as estradas modernas, justamente porque veículos motorizados exigem curvas suaves em altas velocidades, algo que os romanos não precisavam considerar.

A Stane Street, no sul da Inglaterra, conectava Londres a Chichester em cerca de 92 quilômetros, com boa parte do traçado em linha reta. No Oriente Médio, uma avenida costeira ligava Antioquia, na atual Turquia, ao que hoje é Gaza. Esses exemplos mostram que a habilidade romana se espalhava por territórios com geografias muito diferentes.

Quem realmente construía as estradas

A mão de obra variava consideravelmente. Richard Talbert, professor emérito de história da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, descreve a força de trabalho como uma mistura de soldados, escravos, especialmente prisioneiros de guerra, e trabalhadores locais livres convocados por obrigação comunitária.

Para tarefas especializadas, como a construção de pontes, havia trabalhadores pagos.

Além disso, os romanos nem sempre partiam do zero. Marion Kruse, professor associado de estudos clássicos da Universidade de Cincinnati, aponta que a rede viária romana frequentemente incorporava estradas mais antigas de diferentes sociedades que existiam antes da conquista romana.

'Parece seguro assumir que as práticas variavam ao longo do tempo e do espaço', disse Kruse. O Império Romano cobria uma área enorme e durou séculos, tornando improvável que houvesse uma técnica única e padronizada para tudo.

A escala da rede viária romana

O projeto de mapeamento registrou aproximadamente 300 mil quilômetros de estradas romanas. Para ter uma ideia da proporção, a circunferência da Terra na linha do Equador é de cerca de 40 mil quilômetros. A rede romana equivalia a quase oito voltas ao planeta.

Essa malha conectava províncias da Europa ao norte da África e partes do Oriente Médio, permitindo o deslocamento de tropas, o transporte de mercadorias e a comunicação entre diferentes regiões do Império.

A groma, com seus pesos e cordas, foi o instrumento central nesse processo. Simples o suficiente para ser transportada e montada em campo, precisa o suficiente para alinhar centenas de quilômetros de estrada.

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