
Beber água demais pode matar: o perigo oculto das ondas de calor
No fim de semana de 4 de julho de 2026, enquanto os Estados Unidos celebravam o 250º aniversário da independência, termômetros em cidades da Costa Leste e do Centro do país ultrapassavam 38 graus Celsius. Em Nova York, a sensação térmica chegou a 46 graus Celsius durante o dia, segundo dados publicados pela Scientific American.
Milhões de pessoas foram expostas a temperaturas acima da média sazonal, e os alertas de saúde pública se multiplicaram. Mas um dos maiores riscos dessa onda de calor quase não apareceu nos comunicados oficiais.
O perigo que os alertas públicos ignoram
A mensagem mais repetida durante ondas de calor é simples: beba bastante água. O problema é que essa orientação, sem os devidos limites, pode levar a uma condição chamada hiponatremia, que significa baixo nível de sódio no sangue.
A hiponatremia ocorre quando o equilíbrio entre sal e água no organismo é rompido. Quando o sódio no sangue cai abaixo do necessário, as células começam a inchar.
No estágio inicial, os sintomas são facilmente confundidos com os da exaustão por calor: cãibras musculares, náusea, dor de cabeça e cansaço. Essa confusão é perigosa, porque o impulso natural é beber mais água para se refrescar, o que agrava o quadro.
Se não tratada, a hiponatremia pode progredir para convulsões, alucinações, confusão mental e coma. Em casos graves, o cérebro incha tanto que pode se deslocar em direção à medula espinhal, um processo chamado herniação cerebral.
Esse desfecho é frequentemente fatal, e pode ocorrer em questão de horas.
A Scientific American relatou que a própria repórter responsável pelo artigo foi diagnosticada com hiponatremia, o que a levou a investigar por que essa condição raramente aparece em campanhas de saúde pública sobre calor.
Quanto de água é realmente seguro beber
O CDC, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, recomenda que pessoas trabalhando ao ar livre ou se exercitando no calor bebam cerca de 240 ml de água a cada 15 a 20 minutos. Para uma jornada de trabalho de oito horas, isso equivale a pelo menos 1,66 galões, ou mais de 6 litros de água.
Ao mesmo tempo, o próprio CDC alerta: beber mais de 48 onças de líquido em uma hora pode fazer os níveis de sal no sangue despencarem para patamares perigosos. Esse aviso se aplica a qualquer tipo de bebida, não apenas água pura, incluindo sucos, chás e refrigerantes.
Fisiologistas e especialistas em medicina de emergência apontam que a sede é um indicador impreciso de desidratação. Usar essa imprecisão como argumento para beber continuamente sem sentir sede, porém, pode levar ao excesso.
O sal é parte essencial da equação. O CDC orienta que, para manter a hidratação real, é preciso comer regularmente durante o calor para repor o sódio perdido pelo suor.
Gatorade não resolve, mas pretzels salgados ajudam
Muita gente recorre a bebidas esportivas como o Gatorade acreditando que elas protegem contra a hiponatremia por conterem eletrólitos. Essa proteção, porém, é insuficiente.
Bebidas esportivas vendidas em prateleiras de supermercado geralmente contêm menos de 20% da quantidade diária de sódio recomendada para um adulto. Essa concentração é baixa demais para elevar os níveis de sal no sangue de forma eficaz.
Uma alternativa prática apontada pela Scientific American é comer uma porção de 28 gramas de pretzels salgados. Em casos extremos de hiponatremia, médicos administram soluções altamente concentradas de sal, como meia xícara de caldo preparado com quatro tabletes padrão de caldo de carne bovino.
Reconhecer os sintomas pode salvar uma vida
A exaustão por calor é o primeiro estágio de um quadro que pode evoluir para o golpe de calor. Quem sofre de exaustão costuma sentir tontura, suar muito, ter pulso acelerado e náusea. Esses sintomas surgem pela combinação de superaquecimento e desidratação, com perda de sal e água pelo suor.
O golpe de calor é mais grave. A temperatura interna do corpo ultrapassa 40 graus Celsius, e a condição pode ser fatal sem atendimento médico imediato.
Os sinais incluem confusão mental, dificuldade para falar, agitação, respiração ofegante e frequência cardíaca acelerada. Em alguns casos, a pessoa para de suar completamente, o que é um sinal de alerta crítico.
Sem tratamento, o calor extremo dentro do corpo começa a danificar as células, levando a falência de órgãos, inchaço cerebral e, frequentemente, ataque cardíaco.
Estratégias práticas para baixar a temperatura do corpo
Ficar em ambientes com ar-condicionado é a medida mais eficaz. Manter janelas e persianas fechadas durante o dia ajuda a bloquear o calor, já que a luz solar aquece o ambiente. Cidades americanas costumam disponibilizar centros de resfriamento públicos durante emergências de calor, e o National Center for Healthy Housing mantém um diretório por estado para facilitar a localização desses espaços.
Quem não tem ar-condicionado pode usar ventiladores de forma estratégica. Se o ar externo estiver mais frio que o interno, posicionar o ventilador voltado para dentro, próximo a uma janela aberta, ajuda a circular o ar. Usar roupas molhadas na frente do ventilador potencializa o efeito de resfriamento.
À noite, quando as temperaturas caem naturalmente, inverter o ventilador para expulsar o ar quente do cômodo e puxar o ar mais fresco de fora pode ser mais eficiente.
Pesquisas citadas pela Scientific American indicam que mergulhar os pés em água gelada ajuda a reduzir a temperatura central do corpo. Banhos frios frequentes, roupas molhadas com água fria e fronhas guardadas no freezer são recursos adicionais que contribuem para o conforto térmico.
Se for necessário sair, usar chapéu, roupas leves e protetor solar, reaplicado regularmente, reduz a exposição ao calor. Compressas frias no pescoço e nos pulsos, onde os vasos sanguíneos ficam mais próximos da pele, ajudam o organismo a regular a temperatura. Evitar álcool e cafeína também colabora para que o corpo mantenha seu mecanismo de termorregulação funcionando.
Idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas estão entre os grupos com maior risco de complicações graves durante ondas de calor, e merecem atenção redobrada nos dias de temperatura extrema.



