
A molécula de enxofre com 13 átomos que veio do espaço
Uma molécula de 13 átomos contendo enxofre foi detectada no espaço interestelar pela primeira vez em janeiro de 2026, publicada na revista Nature Astronomy por pesquisadores do Instituto Max Planck de Física Extraterrestre, na Alemanha. Os autores a descrevem como um 'elo perdido' entre a química simples do cosmos e os ingredientes complexos que, em algum momento, deram origem à vida na Terra.
O enxofre que some no espaço
O enxofre é o décimo elemento mais abundante em todo o Universo. Ele está presente em aminoácidos, proteínas e enzimas, estruturas fundamentais para qualquer forma de vida conhecida. Mesmo assim, por décadas, os astrônomos se depararam com uma contradição irritante: moléculas grandes contendo enxofre simplesmente não apareciam no espaço interestelar, a vasta região de poeira e gás que existe entre as estrelas.
Mitsunori Araki, cientista do Instituto Max Planck e principal autor do estudo, resumiu bem o paradoxo: 'O enxofre veio do espaço para a Terra há muito, muito tempo. No entanto, encontramos apenas uma quantidade muito limitada de moléculas contendo enxofre no espaço, o que é estranho. Deveria existir em quantidades enormes, mas é muito difícil de encontrar.'
Uma hipótese levantada por outra equipe de pesquisadores sugere que o enxofre pode estar escondido dentro do gelo cósmico, preso em camadas que os telescópios convencionais não conseguem ver facilmente. A nova descoberta não resolve esse mistério por completo, mas adiciona uma peça concreta ao quebra-cabeça.
De 9 para 13 átomos: por que o tamanho importa
Antes desta detecção, a maior molécula contendo enxofre já encontrada no espaço interestelar tinha apenas nove átomos, e já era considerada uma raridade. A maioria das moléculas com enxofre detectadas até hoje possui apenas três, quatro ou cinco átomos.
A nova molécula chega a 13 átomos. Ela também contém carbono e hidrogênio, e seu nome técnico é 2,5-cicloexadieno-1-tiona. Com essa descoberta, ela passa a integrar um catálogo que já reúne mais de 300 moléculas identificadas no espaço.
Araki explicou por que o tamanho é relevante: encontrar moléculas maiores ajuda a preencher a lacuna entre a química simples do espaço e os compostos mais complexos que já foram encontrados em cometas e meteoritos. A ciência consegue agora dar mais um passo na escada que vai do átomo isolado até o bloco básico da vida.
A molécula foi localizada dentro de uma nuvem molecular chamada G+0,693-0,027, a cerca de 27.000 anos-luz da Terra, próxima ao centro da Via Láctea.
Berçários estelares e a rota dos ingredientes
Nuvens moleculares são regiões frias e densas do espaço onde as condições permitem que moléculas se formem e sobrevivam. Elas também funcionam como berçários estelares: a gravidade comprime o gás e a poeira dessas nuvens até que surjam estrelas jovens e, eventualmente, sistemas planetários inteiros.
Valerio Lattanzi, coautor do estudo e também pesquisador do Instituto Max Planck, detalhou o raciocínio por trás da pesquisa: 'Os ingredientes presentes na nuvem molecular serão transferidos para os planetas. Estamos tentando descobrir quais são os ingredientes que eventualmente formarão a vida, tentando entender como, a partir de moléculas simples, chegamos à vida como a conhecemos na Terra.'
A nuvem G+0,693-0,027 já era conhecida por apresentar alta concentração de moléculas de enxofre, o que a tornava um alvo prioritário para a equipe.
Como os pesquisadores identificaram a molécula
O processo de identificação combinou trabalho de laboratório com observações astronômicas. Os pesquisadores sintetizaram a 2,5-cicloexadieno-1-tiona em laboratório, aplicando uma descarga elétrica sobre o tiofenol, um líquido de cheiro desagradável que contém enxofre, carbono e hidrogênio.
A partir dessa síntese, obtiveram uma 'impressão digital de rádio' extremamente precisa da molécula. Essa assinatura foi então comparada com dados coletados pelos radiotelescópios IRAM-30m e Yebes, ambos localizados na Espanha, que haviam observado a nuvem molecular em questão.
A correspondência entre o sinal do laboratório e o sinal captado pelos telescópios confirmou a presença da molécula no espaço.
O que especialistas de fora do estudo disseram
Kate Freeman, professora de Geociências da Universidade Estadual da Pensilvânia, classificou o trabalho como 'uma emocionante história de detetive, possível graças a poderosos radiotelescópios e a uma estratégia de busca realmente eficaz'. Ela destacou que meteoritos já são conhecidos por conter compostos de enxofre grandes e complexos, e que era provável que muitos deles tivessem chegado à Terra no passado. 'Agora sabemos que existe pelo menos uma boa possibilidade de que alguns deles possam ter se originado fora do sistema solar', afirmou.
Sara Russell, professora de ciências planetárias do Museu de História Natural de Londres, apontou que o enxofre é um dos seis elementos essenciais à vida na Terra e pode ter sido combustível vital para os primeiros micróbios do planeta. Para ela, 'a presença de moléculas orgânicas complexas no centro da nossa Via Láctea implica que materiais biologicamente importantes podem estar por toda parte no espaço'.
Ryan Fortenberry, professor de química e bioquímica da Universidade do Mississippi, destacou uma propriedade específica do elemento: 'O enxofre, como átomo, ocupa um lugar muito especial na tabela periódica. Ele possui uma química única que permite que as moléculas façam muito mais do que apenas oxigênio, nitrogênio e carbono permitiriam.'
Fortenberry também lembrou que, há mais de 50 anos, encontrar qualquer molécula no espaço era considerado praticamente impossível, pois o ambiente hostil deveria decompô-las. Hoje, a ciência já detectou moléculas com dezenas de átomos no cosmos.
Um caminho que ainda tem muitas etapas
Lattanzi resumiu a postura da equipe diante da descoberta: 'Estamos tentando adicionar elementos a esse quadro, um por um.' A afirmação reflete bem o ritmo da astroquímica, campo que avança molécula por molécula, nuvem por nuvem.
A detecção da 2,5-cicloexadieno-1-tiona sugere que outras moléculas contendo enxofre, possivelmente ainda maiores, poderão ser encontradas no futuro. O catálogo de mais de 300 moléculas identificadas no espaço continua crescendo, e cada nova entrada aproxima os cientistas de uma resposta para a pergunta que orienta toda essa pesquisa: como a química simples do cosmos se tornou, em algum momento, a química da vida.



