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Animais 5 min04 de jul. de 2026

1.121 Espécies Novas em Um Ano: O Que Há no Fundo do Mar

Entre abril de 2025 e março de 2026, cientistas do programa Ocean Census registraram 1.121 espécies potencialmente novas no oceano. O número representa um salto de 54% em relação ao ciclo anterior, quando foram identificadas 728 espécies. Em apenas três anos de operação, o programa já ultrapassou 2.000 descobertas.

O oceano cobre mais de 70% da superfície terrestre, mas continua sendo o ambiente menos catalogado do planeta. Estimativas citadas pela própria missão indicam que entre 75% e 90% das espécies marinhas ainda podem estar fora dos registros científicos.

A missão que quer nomear 100 mil espécies

O Ocean Census foi lançado em abril de 2023 pela Fundação Nippon, organização japonesa, e pelo instituto britânico Nekton. A meta declarada é descrever até 100 mil novas espécies marinhas, reduzindo o tempo que normalmente separa a coleta de um organismo de sua entrada formal nos catálogos da ciência.

O modelo adotado conecta expedições de campo, museus de história natural, universidades, institutos marinhos e plataformas digitais de compartilhamento de dados. A ideia central é que várias etapas do processo de identificação ocorram quase simultaneamente, em vez de se acumularem em filas de anos nos laboratórios.

Isso inclui oficinas de taxonomia em que especialistas analisam organismos recém-coletados, sequenciamento genético para separar espécies visualmente parecidas, câmeras de alta resolução para registrar estruturas anatômicas minúsculas e bancos de dados abertos acessíveis a pesquisadores de diferentes países.

Verme de castelo, tubarão-fantasma e esponja carnívora

Três descobertas ilustram a diversidade do que está sendo encontrado.

O chamado 'verme do castelo de vidro', descrito cientificamente como Dalhousiella yabukii, foi localizado a 791 metros de profundidade na Cadeia de Montes Submarinos Shichiyo, próxima ao Japão. O animal vive associado a uma esponja de vidro, estrutura que serve tanto de abrigo quanto de substrato para sua sobrevivência.

No Parque Marinho do Mar de Coral, perto de Queensland, na Austrália, pesquisadores registraram um tubarão-fantasma catalogado provisoriamente como Chimaera sp. 1. O apelido popular pode enganar: ele não é tecnicamente um tubarão. Pertence ao grupo das quimeras, parentes antigos que se separaram das linhagens de tubarões e raias há cerca de 400 milhões de anos.

São animais com esqueleto de cartilagem, pele lisa e uma espécie de 'focinho' sensível a campos elétricos.

A descoberta geograficamente mais extrema do levantamento foi uma esponja carnívora do gênero Chondrocladia, encontrada a 3.601 metros de profundidade na Fossa Norte das Ilhas Sandwich do Sul, no Atlântico Sul. Ao contrário das esponjas comuns, que filtram partículas orgânicas dissolvidas na água, essa espécie captura ativamente pequenos crustáceos por meio de estruturas microscópicas semelhantes a ganchos cobertos de filamentos aderentes.

Por que a profundidade dificulta o inventário

A pressão nas regiões abissais pode chegar a centenas de vezes a pressão atmosférica na superfície. A ausência total de luz solar elimina a fotossíntese como base da cadeia alimentar. As temperaturas ficam próximas de zero grau. Esses fatores tornam a coleta de amostras tecnicamente cara e operacionalmente complexa.

Para alcançar esses ambientes, cientistas dependem de navios de pesquisa, submersíveis tripulados, veículos operados remotamente, câmeras resistentes à pressão e laboratórios embarcados capazes de preservar material genético logo após a coleta. Braços robóticos permitem coletar organismos frágeis sem destruir suas estruturas externas.

Uma expedição com submersível realizada na Indonésia, documentada em fevereiro de 2026, mostrou mergulhos a quase 1.000 metros de profundidade em busca de novas espécies, microrganismos e compostos com potencial de aplicação científica.

O que está em jogo além dos nomes

Catalogar espécies não é apenas uma questão de nomenclatura. Cada registro contribui para mapear cadeias alimentares, identificar áreas sensíveis a perturbações e entender como organismos desconhecidos participam dos ciclos biogeoquímicos do oceano.

Sem esse mapeamento, torna-se difícil criar áreas marinhas protegidas com critérios sólidos, avaliar o impacto da pesca profunda, monitorar os efeitos do aquecimento das águas ou regular a mineração de nódulos polimetálicos no fundo do mar, atividade em expansão em várias regiões.

Michelle Taylor, chefe de ciência do Ocean Census, argumenta que cada nova espécie identificada amplia a compreensão de como o oceano funciona e por que determinadas regiões precisam de proteção. No campo da conservação, não se protege aquilo que não se conhece.

54% de crescimento em um ano

A comparação entre ciclos revela a aceleração do programa. No primeiro ano completo de operação, foram registradas 728 espécies potencialmente novas. No ciclo seguinte, encerrado em março de 2026, esse número subiu para 1.121, conforme reportado pela ABC News em maio de 2026.

O crescimento reflete tanto o aumento no número de expedições quanto a maturação da rede de especialistas conectados ao programa. Mais taxonomistas treinados, mais laboratórios parceiros e mais plataformas digitais de comparação de dados resultam em identificações mais rápidas.

Ainda assim, o termo 'potencialmente novas' é deliberado. Uma espécie só é formalmente reconhecida pela ciência após publicação em revista especializada com revisão por pares, processo que pode levar meses ou anos. As 1.121 espécies estão em diferentes estágios desse caminho.

O arquivo vivo mais extenso da Terra

O oceano guarda registros de vida que remontam a mais de 3,5 bilhões de anos. Grupos como as quimeras, separados dos tubarões há 400 milhões de anos, sobreviveram a cinco extinções em massa e continuam habitando as profundezas com pouquíssimas alterações morfológicas.

Esponjas carnívoras do gênero Chondrocladia foram descritas pela primeira vez no século XIX, mas novas espécies do grupo continuam sendo encontradas em fossas oceânicas ao redor do mundo. O padrão se repete em grupos como poliquetas, isópodos, cnidários e moluscos abissais.

Os dados divulgados em junho de 2026 pelo Ocean Census mostram que a exploração marinha entrou em uma fase mais rápida e colaborativa. Em três anos, mais de 2.000 espécies potencialmente novas foram identificadas. O número seguinte depende de quantos navios, especialistas e recursos estarão disponíveis para continuar descendo.

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