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Tecnologia 5 min04 de jul. de 2026

PlayStation sem disco: a polêmica que chegou ao Congresso

Em 3 de julho de 2026, a deputada federal Erika Hilton, filiada ao PSOL, publicou no X uma mensagem direta: ela havia encaminhado à Secretaria Nacional do Consumidor, a Senacon, denúncias relacionadas ao anúncio da Sony sobre o fim dos jogos em mídia física para os consoles PlayStation. A movimentação aconteceu dois dias após a empresa japonesa tornar pública a decisão, que passa a valer para todos os novos títulos a partir de 2028.

O anúncio que gerou a reação

No dia 1º de julho de 2026, a Sony confirmou que deixará de produzir jogos físicos para a plataforma PlayStation. A partir de 2028, todos os novos lançamentos estarão disponíveis exclusivamente em formato digital. Isso significa que quem comprar um jogo novo depois dessa data não terá uma caixa, um disco ou qualquer objeto físico em mãos, apenas um arquivo vinculado a uma conta.

O ponto que mais chamou atenção no debate público foi uma contradição aparente: os consoles PlayStation vendidos atualmente já vêm com leitor de mídia física. Ou seja, o hardware existe, o slot para o disco está lá, mas os jogos que o alimentariam deixarão de ser produzidos.

Para quem comprou um aparelho esperando usar esse recurso por anos, a mudança representa uma alteração significativa nas condições de uso do produto. Esse argumento foi central na manifestação de Hilton.

Os problemas apontados pela deputada

Ao acionar a Senacon, Erika Hilton listou publicamente três preocupações principais. A primeira diz respeito exatamente ao leitor de disco embutido nos aparelhos atuais: o consumidor pagou por um console com essa funcionalidade, e a decisão da Sony esvazia parte do que foi adquirido.

A segunda preocupação envolve o monopólio das lojas digitais. No ecossistema PlayStation, a única forma de comprar jogos digitais é pela PlayStation Store, controlada pela própria Sony. Não há concorrência entre revendedores, o que elimina a possibilidade de o consumidor buscar preços menores em outros canais, algo comum no mercado de mídia física, onde qualquer loja pode vender um disco.

A terceira questão toca em algo que muitos jogadores já debatiam antes mesmo do anúncio oficial: o acervo pessoal. Quem compra um jogo físico tem um objeto que pode guardar, revender ou emprestar.

Quem compra digitalmente adquire, na prática, uma licença de uso vinculada à conta e à plataforma. Se a conta for suspensa, se a loja fechar ou se a empresa mudar as regras, o acesso ao jogo pode simplesmente desaparecer.

Nas palavras da própria deputada, publicadas no X: 'Existirão apenas assinaturas, com mil níveis e preços diferentes, com anúncios no meio dos jogos e as piores práticas possíveis. O console, comprado pelo consumidor, só terá utilidade mediante a venda casada de uma assinatura'.

Venda casada: o conceito jurídico por trás da denúncia

A expressão 'venda casada' usada por Hilton tem peso legal no Brasil. O Código de Defesa do Consumidor proíbe a prática de condicionar a compra de um produto ou serviço à aquisição de outro. Se um console com leitor de disco só puder ser usado plenamente mediante a contratação de uma assinatura digital, há um argumento jurídico a ser avaliado pelos órgãos competentes.

Cabe à Senacon realizar esse tipo de análise. A secretaria tem competência para investigar práticas comerciais que possam violar direitos do consumidor e, quando necessário, aplicar sanções administrativas às empresas.

A deputada também mencionou sua posição na Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados como parte da justificativa para a atuação, reforçando que a iniciativa não foi apenas uma manifestação pessoal, mas um ato com respaldo institucional.

Uma mudança que já aconteceu antes em outros mercados

O movimento da Sony em direção ao digital não surgiu do nada. A indústria de games vem reduzindo gradualmente o espaço da mídia física há mais de uma década. Jogos para PC já são distribuídos quase que exclusivamente por plataformas digitais como Steam há anos. No mercado de consoles, a tendência se acelerou com o lançamento de versões sem leitor de disco, como o PlayStation 5 Digital Edition.

A diferença agora é que a Sony está anunciando uma data de encerramento definitivo para a produção de novos títulos físicos, o que coloca o debate em outro patamar. Não se trata mais de uma opção paralela ao mercado digital, mas do fim de um formato que existiu desde os primórdios do console.

O primeiro PlayStation, lançado em 1994 no Japão, foi construído justamente em torno do CD-ROM como substituto aos cartuchos. Desde então, o disco foi parte central da identidade da plataforma por mais de três décadas. A mudança prevista para 2028 encerraria esse ciclo, afetando tanto colecionadores quanto consumidores que dependem do mercado de usados para acessar títulos mais baratos.

O que a Senacon pode fazer

Após receber uma denúncia formal, a Senacon pode abrir um processo administrativo para investigar a empresa. Se identificar irregularidades, o órgão tem poder para notificar a Sony, exigir esclarecimentos, determinar ajustes nas práticas comerciais e, em casos mais graves, aplicar multas.

A secretaria também pode acionar outros órgãos, como o Cade, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica, caso a investigação aponte indícios de práticas anticoncorrenciais relacionadas ao controle exclusivo da loja digital.

Até o momento do anúncio de Hilton, a Sony não havia se pronunciado publicamente sobre a ação movida junto à Senacon. A deputada encerrou sua publicação no X com uma nota pessoal que circulou bastante nas redes: 'Eu, enquanto parlamentar, enquanto membra da Comissão de Defesa do Consumidor e enquanto alguém que tem apenas um jogo em sua biblioteca, GTA, e viciada em fazer apenas a missão do avião, não aceito essa possibilidade'.

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