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História 5 min04 de jul. de 2026

O DNA revelou quem mandava nos Citas há 2.500 anos

Um esqueleto de adolescente coberto por mais de 4.000 ornamentos de ouro foi encontrado em 1969 no Cazaquistão. Por décadas, especialistas presumiram que pertencia a um poderoso guerreiro masculino. Em 2026, a análise de DNA finalmente respondeu à pergunta que ficou sem resposta por mais de meio século: o indivíduo era geneticamente masculino, mas sua identidade vai além do sexo biológico. Ele era membro de uma elite dinástica que governava os Citas, povo nômade da Eurásia, há 2.500 anos.

O estudo, publicado em julho de 2026 na revista Science Advances, sequenciou o genoma de 85 Citas da Idade do Ferro e reescreveu o que se sabia sobre a organização social desses povos que percorriam as estepes entre 900 e 200 a.C.

Os Citas: guerreiros sem escrita, mas com kurgans de ouro

Os Citas eram um conjunto diverso de tribos nômades conhecidas pela habilidade equestre e pela ferocidade em batalha. Gregos e romanos os descreveram com admiração e temor. Heródoto, historiador grego, registrou relatos sobre suas guerreiras, que possivelmente inspiraram o mito das Amazonas. Mas os próprios Citas não deixaram registros escritos.

O que sobrou deles são os kurgans: túmulos em forma de montículo que pontilham as estepes euroasiáticas do Cazaquistão à Sibéria. Dentro deles, arqueólogos encontraram múmias tatuadas, joias com motivos animais e armas elaboradas. A riqueza dos kurgans varia enormemente, e essa variação foi o ponto de partida do novo estudo.

Os pesquisadores geraram genomas a partir dos esqueletos de 38 indivíduos de elite e 47 não-elite, enterrados em 20 sítios arqueológicos distintos. Os túmulos de elite eram maiores e continham armas, ouro e artefatos de prata. Os túmulos não-elite eram mais simples e desprovidos desses itens.

Parentes entre si, estranhos para os demais

A descoberta central do estudo é estatística e direta: pessoas de elite eram 11 vezes mais propensas a ser geneticamente relacionadas entre si do que a qualquer pessoa não-elite. Esse número indica a existência de um grupo familiar estendido e poderoso que controlava as tribos nômades da estepe.

Entre os indivíduos de elite analisados, os pesquisadores identificaram dois pares de irmãos biológicos, um par de irmão e irmã, e uma relação direta entre pai ou mãe e filho. Em um dos casos, dois irmãos foram enterrados em sítios geograficamente distantes um do outro, o que sugere que membros da mesma família governavam territórios diferentes.

Dois avôs e seus netos também foram identificados, cada par em cemitérios separados.

Ainash Childebayeva, antropóloga genética da Universidade do Texas em Austin e coautora do estudo, explicou em entrevista ao Live Science que essa distribuição pode indicar algum grau de centralização geográfica dos enterramentos de elite, que em média ficavam mais próximos entre si. Ela citou como exemplo a chamada Vale dos Reis na Sibéria, área que concentra grandes kurgans do mesmo período.

Os indivíduos de elite, mesmo estando enterrados em locais distintos, estavam em média mais próximos geograficamente entre si do que os não-elite.

Mulheres de alto status e o Homem Dourado

Quase metade dos indivíduos de elite identificados no estudo eram mulheres. A pesquisadora principal Ayshin Ghalichi, arqueogeneticista do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva na Alemanha, afirmou em nota oficial que a presença marcante de mulheres de elite foi uma observação importante, indicando que elas ocupavam posições de alto status social na sociedade Cita da Idade do Ferro.

Essa conclusão corrobora os relatos de Heródoto sobre guerreiras Citas, que por muito tempo foram tratados com ceticismo por historiadores modernos.

O esqueleto conhecido como Homem Dourado foi descoberto em 1969 em um kurgan no Cazaquistão acompanhado de mais de 4.000 ornamentos dourados e uma tigela de prata com uma inscrição que nunca foi decifrada. Como os ossos não permitiam determinar o sexo com precisão, especialistas assumiram que se tratava de um guerreiro masculino. O DNA gerado no novo estudo, embora de cobertura baixa, indicou que o indivíduo era muito mais provavelmente geneticamente masculino do que feminino, segundo Childebayeva. Nenhuma relação de parentesco foi identificada para ele dentro do conjunto analisado.

A idade do Homem Dourado, estimada em 17 anos com base nos ossos, reforça a tese do poder dinástico hereditário: um adolescente não acumularia tamanha riqueza por mérito próprio em vida.

A herança do poder entre os nômades

O caso mais expressivo de herança de status veio de outro par: um avô e seu neto de apenas 1 ano de idade, ambos enterrados em kurgans de elite. Childebayeva descreveu esse achado como ainda mais marcante do que os demais, porque torna impossível atribuir o status da criança a qualquer conquista pessoal.

A desigualdade social entre os Citas não surgiu de repente. O estudo indica que ela se estabeleceu por volta de 900 a.C., no início da Idade do Ferro, e persistiu até a absorção dos Citas por outros grupos culturais após derrotas militares em torno de 200 a.C.

Essa trajetória de sete séculos de estratificação social organizada em torno de linhagens familiares é comparável à de civilizações sedentárias contemporâneas, mas ocorreu em grupos que não tinham cidades fixas nem registros escritos.

A pesquisa foi conduzida por uma equipe internacional ampla, com participação de instituições do Cazaquistão, Alemanha e Estados Unidos, e analisou materiais de 20 sítios arqueológicos distribuídos pelas estepes da Ásia Central.

O que os kurgans ainda escondem

Os túmulos Citas continuam sendo a principal fonte de informação sobre esses povos. Além dos dados genéticos, os kurgans forneceram joias com motivos de leopardos e tigres, múmias com tatuagens elaboradas e evidências de práticas funerárias complexas.

Em um enterramento duplo descoberto na Ucrânia com cerca de 1.900 anos, pesquisadores encontraram um mineral vermelho tóxico. Em outro sítio, análises confirmaram o relato de Heródoto de que os Citas usavam pele humana como couro, prática descrita pelo historiador grego e tratada como exagero por séculos.

A análise de DNA antigo transforma esses objetos em evidências de relações familiares, hierarquias e padrões de mobilidade. O estudo publicado em 2026 demonstra que o poder entre os Citas não era conquistado individualmente a cada geração: era transmitido pelo sangue, de avô para neto, de irmão para irmão, de pai para filho — mesmo que cada um deles estivesse enterrado em um kurgan diferente, em uma estepe diferente, a centenas de quilômetros de distância.

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