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Mistérios & Fenômenos 3 min16 de jun. de 2026

O Dia em que Ácido Quase Destruiu uma Obra de Rembrandt

Uma Obra-Prima com Quase 350 Anos de História

Pintada em 1636, Danaë é uma das telas mais sensuais e tecnicamente elaboradas de Rembrandt van Rijn — considerado por muitos historiadores o maior pintor de todos os tempos. A obra retrata a figura mitológica grega Danaë, filha do rei Argos, recebendo Zeus disfarçado de chuva de ouro. Com dimensões de 185 × 203 cm, a pintura exibe o domínio absoluto de Rembrandt no uso da luz e da textura, características marcantes do período Barroco.

Desde 1764, a tela integra o acervo do Museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia — um dos maiores e mais importantes museus do mundo. Lá, ela atravessou guerras, revoluções e séculos de história. Mas nenhum evento histórico a ameaçou tanto quanto o que aconteceu numa manhã comum de junho de 1985.

O Ataque: Ácido e Faca em Pleno Museu

Era o dia 15 de junho de 1985 quando um homem lituano chamado Bronius Maigys, de 48 anos, aproximou-se da tela exposta no Hermitage e, sem qualquer aviso, jogou ácido sulfúrico diretamente sobre a pintura. Em seguida, sacou uma faca e rasgou a tela em dois pontos antes de ser contido pelos seguranças do museu.

A reação química foi imediata e devastadora. O ácido sulfúrico entrou em contato com as camadas de tinta a óleo e iniciou um processo de corrosão irreversível em questão de segundos. A parte central da tela — justamente o rosto e o torso da figura de Danaë — foi a mais atingida, transformando-se numa massa borbulhante e escurecida diante dos olhos dos visitantes que assistiram ao ataque em choque.

Cerca de 27% da superfície pintada foi danificada de forma grave e imediata. Funcionários do museu tentaram neutralizar o ácido com água e solução alcalina, mas a reação já havia comprometido de forma profunda as camadas de pigmento acumuladas por Rembrandt ao longo de anos de trabalho.

Quanto ao agressor, Bronius Maigys foi detido no local. Avaliações psiquiátricas posteriores concluíram que ele sofria de distúrbios mentais, e ele foi internado em uma instituição psiquiátrica soviética. Nunca ficou claro qual teria sido a motivação específica para o ataque.

A Batalha pela Restauração

O desafio que se apresentou aos restauradores do Hermitage era monumental. O ácido não apenas removeu a tinta: ele alterou quimicamente a composição dos pigmentos, criando compostos novos e instáveis que continuavam reagindo mesmo após a neutralização inicial.

A restauração foi conduzida por uma equipe liderada pela especialista Yevgenia Gerasimova e durou aproximadamente 12 anos, sendo concluída apenas em 1997. O processo envolveu:

- Estabilização química das áreas corroídas para interromper reações em curso - Consolidação mecânica das camadas de tinta que ameaçavam se desprender - Reconstituição pictórica cuidadosa das regiões destruídas, com base em estudos radiográficos e fotografias anteriores ao ataque - Uso de materiais reversíveis, garantindo que intervenções futuras pudessem ser realizadas sem dano adicional

Os restauradores tiveram o cuidado de deixar visível, em certos pontos, a distinção entre o que era original e o que havia sido reconstituído — uma prática ética fundamental na restauração contemporânea.

O que Restou da Danaë Hoje

A Danaë voltou a ser exposta ao público no Hermitage em 1997, após a conclusão dos trabalhos de restauração. Ela está protegida hoje por um vidro blindado e sistemas de segurança reforçados — medidas que, tragicamente, só vieram após o ataque.

Ainda que a tela tenha sido salva, especialistas reconhecem que a obra não é mais exatamente a mesma. As áreas reconstruídas, por mais habilidosas que sejam, não reproduzem com fidelidade absoluta as pinceladas originais de Rembrandt. A luminosidade característica do mestre holandês, construída em camadas sobrepostas de tinta ao longo de meses, não pode ser verdadeiramente replicada.

O episódio serve como um lembrete perturbador de como obras insubstituíveis podem ser destruídas em segundos — e de como a restauração, mesmo quando bem-sucedida, nunca devolve completamente o que foi perdido. A Danaë sobreviveu, mas carrega para sempre as cicatrizes daquela manhã de 1985.

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