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História 6 min03 de jul. de 2026

Como os romanos construíam estradas tão retas sem GPS?

A Via Appia, uma das estradas mais famosas do mundo antigo, conectava Roma ao porto de Brundisium no sul da Itália percorrendo mais de 500 quilômetros. Grande parte desse trajeto corria em linha praticamente reta, atravessando campos, colinas e terrenos variados. Isso não foi obra do acaso.

Os engenheiros romanos construíram uma rede viária que, segundo um projeto recente de mapeamento publicado na revista científica Nature, soma cerca de 300 mil quilômetros de estradas catalogadas, com a possibilidade de que ainda existam muitas outras por descobrir. Para colocar esse número em perspectiva: é o equivalente a dar mais de sete voltas ao redor da Terra.

Os três instrumentos que mudaram tudo

A resposta para a pergunta de como os romanos conseguiam traçar linhas tão retas está em três ferramentas de topografia que os agrimensores romanos, conhecidos como mensores, carregavam consigo.

A pesquisadora Adriana Panaite, do Instituto de Arqueologia Vasile Pârvan, na Romênia, que estudou extensivamente as estradas romanas, explica que os três instrumentos usados de forma consistente pelos construtores romanos eram a dioptra, o chorobatus e a groma.

O que chama atenção é que, dos três, apenas a groma foi encontrada em escavações arqueológicas. As outras duas ferramentas são conhecidas principalmente por descrições em textos antigos.

A groma: a estrela das ferramentas romanas

Segundo o arqueólogo Joseph Lewis, da Universidade de Cambridge, que conduziu pesquisas extensivas sobre estradas romanas, a groma era o principal instrumento do agrimensor na hora de planejar alinhamentos longos e retos. Esses alinhamentos eram então usados na construção de estradas em terrenos mais planos.

A groma consistia em um poste vertical com uma cruz horizontal em forma de X no topo. Das quatro pontas dessa cruz pendiam pequenos pesos presos a cordas. O funcionamento era elegante na sua simplicidade: os pesos criavam linhas de prumo perfeitas, e o agrimensor podia usar esses fios para verificar se dois pontos distantes estavam alinhados.

O processo funcionava assim: um agrimensor ficava em um ponto com a groma, enquanto outros carregavam postes ao longo do trajeto planejado. O agrimensor do ponto de referência direcionava os colegas para moverem seus postes até que todos ficassem em linha reta visualmente. Uma vez estabelecida a direção, o grupo avançava e repetia o processo.

O detalhe que poucos conhecem é que vários agrimensores podiam trabalhar em conjunto, cada um com seu próprio equipamento, garantindo que a linha se mantivesse consistente por quilômetros a fio.

A dioptra e o chorobatus

A dioptra era um instrumento óptico de mira. Seu design variava bastante, mas geralmente incluía um suporte, uma base em formato de disco e um tubo de mira acoplado. O agrimensor olhava pelo tubo para enxergar um ponto distante sem que a luz lateral interferisse na visão, o que permitia um alinhamento muito mais preciso do que olhar a olho nu.

Curiosamente, nenhum exemplar da dioptra foi encontrado em escavações até hoje. O que os historiadores sabem sobre ela vem de textos antigos, segundo o historiador M. J. T. Lewis, da Universidade de Hull, no Reino Unido, que analisou o tema em seu livro Surveying Instruments of Greece and Rome, publicado pela Cambridge University Press em 2001.

Já o chorobatus servia para medir planos horizontais. Era uma viga de madeira sobre pernas, parecida com uma pequena mesa, com cerca de seis metros de comprimento. Pequenos pesos pendurados nela indicavam se a superfície estava nivelada. Funcionava como um nível de pedreiro gigante, ajudando os construtores a determinar elevações e estabelecer pontos de referência ao longo do traçado.

Nenhum exemplar do chorobatus sobreviveu até os dias de hoje, e os detalhes exatos de como ele era usado ainda geram debate entre os especialistas.

Nem todas as estradas eram retas

Há um mito popular de que todas as estradas romanas eram perfeitamente retas. A realidade é mais nuançada.

Tom Brughmans, arqueólogo clássico da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, e integrante da equipe que ajudou a criar um mapa atualizado da rede viária romana, explica que os romanos preferiam estradas retas em locais onde o terreno oferecia pouca resistência, como planícies e áreas abertas. Em regiões montanhosas ou com obstáculos naturais, as estradas frequentemente precisavam se curvar.

Os agrimensores observavam a paisagem e ajustavam o traçado para evitar encostas muito íngremes, que seriam problemáticas para veículos com rodas, além de buscar pontos adequados para cruzar rios e conectar povoados já existentes.

Além disso, nem todas as estradas romanas eram construídas do zero. Marion Kruse, professor associado de estudos clássicos da Universidade de Cincinnati, aponta que a rede viária romana frequentemente incorporava estradas mais antigas, de sociedades que existiam antes da conquista romana. Nesses casos, o traçado herdado nem sempre seguia os padrões de linearidade que os romanos preferiam.

Quem construía as estradas?

A construção das estradas romanas era um esforço coletivo e diversificado. Richard Talbert, professor emérito de história da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, explica que o trabalho era realizado por uma mistura de soldados, escravos, especialmente prisioneiros de guerra, e trabalhadores locais livres convocados por obrigação comunitária, em um sistema semelhante ao que hoje chamamos de trabalho compulsório.

Para tarefas especializadas, como a construção de pontes, trabalhadores pagos provavelmente eram contratados. Isso significa que a qualidade e as técnicas de construção variavam consideravelmente ao longo do vasto território do Império Romano e dos séculos em que ele existiu.

Kruse alerta que os especialistas devem ter cautela ao assumir que existia uma única técnica 'romana' de construção de estradas. O Império cobria uma área enorme e durou por um período muito longo, e as práticas certamente variaram no tempo e no espaço.

A Stane Street e outras maravilhas viárias

Um exemplo fascinante de engenharia viária romana fora da Itália é a Stane Street, no sul da Inglaterra. Com cerca de 92 quilômetros de extensão, a estrada conectava Londres a Chichester e grande parte do seu traçado é notavelmente reta até hoje.

No Oriente Médio, os romanos também deixaram sua marca com avenidas costeiras retas, como a que ligava Antioquia, na atual Turquia, ao que hoje é a Faixa de Gaza.

Quando você percebe que essas estradas foram planejadas e construídas sem satélites, sem computadores, sem drones de mapeamento e sem qualquer tecnologia que consideraríamos básica hoje, a engenhosidade dos romanos ganha uma dimensão completamente diferente. Três instrumentos de madeira, metal e cordas foram suficientes para criar uma infraestrutura que moldou a Europa por séculos e cujos traçados ainda influenciam estradas e cidades modernas.

Brughmans acredita que pesquisas futuras vão mostrar que, em geral, as estradas romanas são menos retas do que as estradas modernas, justamente porque os veículos motorizados de hoje precisam evitar curvas acentuadas em altas velocidades, o que exige um nível de planejamento diferente. Os romanos, com seus carros de boi e legiões a pé, tinham outras prioridades, mas a precisão que alcançaram com ferramentas tão simples continua sendo uma das grandes façanhas da engenharia antiga.

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